Faz hoje um ano. Partida para Santiago de Compostela. Dia chuvoso e cinzento. Ansiedade exacerbada que não me deixou dormir. A benção e uma sensação de que aquela experiência poderia mudar a minha vida.
Seguir as setas amarelas. Seguir as conchas em Espanha. Seguir caminhos onde não passam carros. Subir montanhas. Dar a mão a alguém. Aceitar a mão de um estranho.
Criar laços únicos.
Ler o pensamento de um amigo. Não precisar de falar para explicar. Não precisar de ouvir para entender.
Fazer amigos para sempre. As massagens nos pés. As massagens na alma.
Cantar e chorar de dor no mesmo minuto.
Dormir no albergue. Sensação de viagem no tempo. Fora deste mundo. No passado.
Tirar o relógio. Acordar com o nascer do sol. Ouvir alguém declamar poesia no caminho. Ouvir uma voz cristalina a cantar.
Sobreviver sem nada. Só a natureza, as pessoas e o seu imenso carinho. E o sol a dizer as horas. E a queimar.
Valorizar as fontes. Sentir o sabor da água. Valorizar a sombra. Valorizar os sorrisos e votos de quem vê passar. Os peregrinos. As conchas ao pescoço. O bastão.
Entrar suavemente nas cidades,integrá-las pouco a pouco, sem a agressão dos automóveis.
Chegar a Santiago e chorar. Entender que mais que chegar, o importante é o percurso.
Ver o turíbulo a baloiçar pela nave da catedral, o fumo do incenso a subir e sentir que a alma se liberta finalmente. Limpa e leve.