terça-feira, julho 20, 2021

A riqueza do património imaterial

Ainda sobre o betacismo – “troca de v’s pelos b’s” ou, mais precisamente, pronunciar todos os sons (b e v) como “b” – nesta foto podemos ver o exemplo que dei no texto anterior acerca da não existência da letra “v” no alfabeto latino e lá está o “v” com o som de “u”:

Aqvi apareceo nossa senhora da ora lovvado seja o sanctissimo sacramento

A partir do séc. XVI. com a introdução das letras j e v no alfabeto, a par das mudanças poçiticas decorrentes não só da reconquista cristã - que promoveiu o contacto com a língua e cultura árabes  mas também com a transferência de poder para o centro do reino e com a ascensão da segunda dinastia (dinastia de Avis)  - que tirou o protagonismo à nobreza do norte de Portugal - o padrão culto da língua passou a ser o falado no sul e as variantes do Norte perderam a sua influência.

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sexta-feira, julho 02, 2021

Betacismo ou os caminhos da língua

 

Já ouviu falar em betacismo? É um conceito muito interessante que explica uma questão de sotaque e que traduz também a riqueza da História do nosso país e da região onde nos inserimos.

O betacismo, referido normalmente por trocar o "v" pelo "b", é a designação para um fenómeno linguístico que na prática consiste na pronúncia de todos os sons "v" como "b". Observa-se no norte de Portugal, mas também no castelhano, galego, no sul de Itália e em algumas regiões do nordeste e do centro-oeste brasileiros. 

Dito de uma forma muito genérica, tem a ver com o facto de, no latim, a letra "b" representar a consoante oclusiva bilabial sonora, enquanto que o "v" era uma ortografia alternativa para a letra "u". O som "v", tal como o conhecemos hoje, não existia. 

Quem é que não reparou já que nas lápides de igrejas antigas a palavra "Deus" aparece escrita como "Devs", por exemplo? Escrevia-se desta forma, mas lia-se com som "u".

Na realidade, o alfabeto latino não tinha as letras “j” e “v” – estas foram introduzidas no século XVI para representarem o “i” e o “u” com funções consonânticas.

O galaico-português, com origem no noroeste da península, foi falado durante a Idade Média nas regiões de Portugal e da Galiza e deu origem à língua portuguesa e ao galego.

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terça-feira, março 30, 2021

Uma árvore


Ofereceram-me uma árvore

À falta de um filho

Deram-me esta imortalidade

Mas o que fazer com ela

Se não tenho chão?


Há um jardim aqui ao lado

É de cimento branco

Branca a aridez

Branco o brilho

Branca a solidão

Dos cegos de Saramago


Avenidas e ruas

Permanecem vazias

De todos os lugares no mundo

Não existe nenhum onde brote vida

Apenas tempo infindo e lento

E um medo difuso

Que nos faz escolher a sombra

Quando escapamos do cativeiro


Mas nunca escapamos

Essa é a verdade que vai sobrar

Depois de nos dizerem

Podes ir


Nunca mais os dias

Voltarão à inocência

Do tempo em que éramos invencíveis

Deram-me uma árvore

E agora não há mais jardins

                                        

Foto de Luís Miguel Duarte

(@luismjjduarte)