Água que caía
Na roda da azenha
No caminho estreito
Vinha a sombrear
Concertina ao longe
A ensaiar as voltas
E só ruído de água,
de calor, de pássaros
e o cheiro a terra,
a quente, a paz.
Passado a espreitar
Na pedra do muro
E no peito um murmúrio
A pedir ao tempo
Para voltar atrás.
Março de 1998
Um lugar para brincar com palavras e ideias. Para partilhar. Para nunca esquecermos quem somos. O que sentimos. Para minimizar a mágoa de não podermos estar em vários sítios ao mesmo tempo. A corrida apressada da vida. A impossibilidade de conhecer tudo o que existe. A saudade já.
sexta-feira, julho 09, 2004
Tirar o equídeo da pluviosidade
No meu habitual regresso a casa, desta vez vim o tempo todo a rir. Com as notícias, ou melhor, com uma notícia.
Então a bancada do PS não se toma de questões com a da maioria a propósito do assunto na ordem do dia ( até já me aflige ouvir a expressão, quanto mais dizê-la ) e eis que a dada altura um deputado do PP diz qualquer coisa assim ao do PS : tire o equídeo da pluviosidade que os senhores não sabem se ganhariam as eleições.
Gostei. Que pérola.
Então a bancada do PS não se toma de questões com a da maioria a propósito do assunto na ordem do dia ( até já me aflige ouvir a expressão, quanto mais dizê-la ) e eis que a dada altura um deputado do PP diz qualquer coisa assim ao do PS : tire o equídeo da pluviosidade que os senhores não sabem se ganhariam as eleições.
Gostei. Que pérola.
quinta-feira, julho 08, 2004
Eu sei que isto não se faz
Eu sei que é um texto muito grande para pôr num blog. Está bem. Têm razão. Mas é tão bonito...além do mais, vejam lá a coincidência : eu ontem disse que não ia resistir a pôr o texto. Nem sequer me lembrava que de facto hoje faço anos. Pois é: faço anos.
Não fiquem preocupados. Gosto do texto. Tenho saudade de muita coisa ( principalmente das coisas que nunca vou viver ), mas não estou assim triste.
ANIVERSÁRIO
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Álvaro de Campos, 15-10-1929
Mas invariavlmente este texto dá-me uma certa vontade chorar. Que bem que ele escrevia!
Não fiquem preocupados. Gosto do texto. Tenho saudade de muita coisa ( principalmente das coisas que nunca vou viver ), mas não estou assim triste.
ANIVERSÁRIO
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Álvaro de Campos, 15-10-1929
Mas invariavlmente este texto dá-me uma certa vontade chorar. Que bem que ele escrevia!
quarta-feira, julho 07, 2004
Viagem de regresso a casa
Ao contrário da generalidade das pessoas, gosto muito das viagens de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Quarenta minutos. Sem a infelicidade das buzinas e dos canos de escape: a maior parte do tempo em paisagem campestre.
A viagem é um dos poucos momentos do dia em que estou só. Mecanicamente ocupada com a condução e com a mente livre para divagar.
Hoje fui para lá a pensar num grupo organizado para votar em branco. Que ideia interessante! Com campanha e tudo.
Mas a magia surgiu no regresso a casa. Apanhei a entrevista das 19h na TSF. Germana Tânger. Amiga de Almada Negreiros. Ela própria um ser imenso. Almada escolheu-a para declamar os seus poemas e foi ele que organizaou, em 1959, uma homenagem a Pessoa onde ela declamou a Ode Marítima.
Pois bem, um daqueles momentos!
Um privilégio ouvir alguém falar de Almada Negreiros tendo convivido de tão perto com ele. Fiquei a saber que costumava "hibernar" em Novembro: metia-se na cama e só saía no fim do Inverno. Nesse meio tempo, dedicava-se à Geometria ( para desespero de Sara, a sua mulher ), à procura DO número - esta seria a sua grande obcessão.
A seguir Germana fala da sua paixão pela poesia de Pessoa e, quando o entrevistador lhe pede para dizer um poema, ela escolhe Aniversário de Álvaro de Campos...
Não posso descrever. Não tenho capacidade para o fazer. Sei que a dada altura, não complicasse isso demais a minha condução, toda a SAUDADE desse poema me deu uma vontade enorme de chorar. Ela chorou ao declamá-lo.
É nestes momentos que sinto que o mundo tem um coração e que ele bate ao ritmo do meu por uns instantes.
Se calhar não vou resistir a pôr aquele poema enorme, com um
tamanho tão desajustado a um blog, aqui no sítio da saudade.
A viagem é um dos poucos momentos do dia em que estou só. Mecanicamente ocupada com a condução e com a mente livre para divagar.
Hoje fui para lá a pensar num grupo organizado para votar em branco. Que ideia interessante! Com campanha e tudo.
Mas a magia surgiu no regresso a casa. Apanhei a entrevista das 19h na TSF. Germana Tânger. Amiga de Almada Negreiros. Ela própria um ser imenso. Almada escolheu-a para declamar os seus poemas e foi ele que organizaou, em 1959, uma homenagem a Pessoa onde ela declamou a Ode Marítima.
Pois bem, um daqueles momentos!
Um privilégio ouvir alguém falar de Almada Negreiros tendo convivido de tão perto com ele. Fiquei a saber que costumava "hibernar" em Novembro: metia-se na cama e só saía no fim do Inverno. Nesse meio tempo, dedicava-se à Geometria ( para desespero de Sara, a sua mulher ), à procura DO número - esta seria a sua grande obcessão.
A seguir Germana fala da sua paixão pela poesia de Pessoa e, quando o entrevistador lhe pede para dizer um poema, ela escolhe Aniversário de Álvaro de Campos...
Não posso descrever. Não tenho capacidade para o fazer. Sei que a dada altura, não complicasse isso demais a minha condução, toda a SAUDADE desse poema me deu uma vontade enorme de chorar. Ela chorou ao declamá-lo.
É nestes momentos que sinto que o mundo tem um coração e que ele bate ao ritmo do meu por uns instantes.
Se calhar não vou resistir a pôr aquele poema enorme, com um
tamanho tão desajustado a um blog, aqui no sítio da saudade.
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