quinta-feira, julho 16, 2026

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Continue assim durante duas horas

Repita todos os dias.

quinta-feira, abril 09, 2026

O cesto de piquenique

 

O cesto tinha quatro pés pequenos e duas tampas que fechavam com um encaixe. Vime, velatura laranja, o género de coisa que parece ter vindo de um mercado numa terra onde se gostaria de passar um fim de semana. 

A minha mãe tinha dezenas assim. Cestos, cabazes, tabuleiros, palha e cana e coisas feitas à mão. A casa era quase um museu de artesanato. Nunca a vi mais feliz do que quando encontrava um cesto novo.

O bicho da madeira atacou o cesto de piquenique.

Durante semanas mudei-o de lugar, lavei-o, vi o pó a acumular-se na prateleira. Um dos pés tinha sido completamente devorado por dentro. Quando finalmente se partiu, fiquei ali parada a segurar um pequeno cilindro oco de vime e percebi que a decisão já tinha sido tomada por mim.

Pu-lo no caixote do lixo.

Depois, fiquei à janela um momento.

Ela não o teria deitado fora. Teria encontrado um canto para ele, uma razão.

Guardava as coisas para além da sua utilidade porque as coisas, para ela, nunca foram apenas úteis. Eram conversas. Eram a memória da tarde em que as comprou, com quem estava, o que o tempo fazia lá fora.

Ninguém precisava de tantos cestos. Mas ela comprava-os na mesma, e a casa estava cheia da sua alegria.

Ainda os compro, às vezes. Vejo um numa feira e penso: ela vai gostar deste. Pego no telemóvel para lhe mandar uma fotografia, e depois lembro-me. O pensamento acaba em tristeza. A casa já não existe. A porta onde eu batia já não está lá.

Há meses em que quase me esqueço. Depois, um pequeno objeto, banal, capta a luz de uma certa forma, e sofro a sua falta como se tivesse acontecido agora. A saudade não passa com o tempo.

O cesto já era pó. Eu sei. O que atirei para o caixote verde não foi o cesto. Foi a última versão de uma conversa que nunca terminámos, e o silêncio que fica quando se percebe que nunca se poderá terminar essa conversa.

A memória não vive apenas nas coisas que guardamos. Vive nas que não conseguimos guardar.

segunda-feira, março 02, 2026

Do piano para o violino

 

Fala-se tanto na necessidade de sair da bolha. Sair do isolamento que faz parte do trabalho por conta própria. Ouvir pontos de vista de outras áreas. Trocar ideias com colegas de profissão. Dirigir a nossa atenção para fora de nós e do nosso mundo.

Ontem, meti-me no metro e fui para a Póvoa de Varzim. Não tinha planeado fazê-lo, foi um impulso. Pensei que era uma oportunidade única, eu estava por perto. Por que não?

Para começar, gostei bastante da viagem. Sou adepta de transportes públicos e nunca tinha feito este trajeto. A manhã estava luminosa e morna. A carruagem silenciosa e quase vazia.

Dediquei-me à habitual observação, à qual eu chamo “estudos sociológicos” para entender as movimentações das pessoas que iam saindo em cada estação. Trabalho? Regresso a casa? Turismo? O pensamento habitual: quem são? de onde vêm? para onde vão?

A viagem demora cerca de 40 minutos e ainda deu para ler um pouco do meu livro. O telemóvel, com a sua voz persistente, tentava chamar-me a atenção. Recusei. Era a manhã da atenção plena. Do estar no momento. De abandonar a bolha e deixar o pensamento pousar em todos os detalhes do dia.

E por que ir à Póvoa de Varzim? Bem, todos os motivos são válidos para ir lá. Uma cidade atlântica, onde se respira o ar do mar em todas as ruas. Melhor ainda, pessoas de uma simpatia genuína e discreta que nos acolhem num abraço.

Além disso, outro pretexto a reforçar o plano: o evento anual Correntes d’Escritas e a oportunidade de ouvir ao vivo e em direto alguns dos escritores favoritos.

Fui lá por causa do José Luís Peixoto. Cereja no topo do bolo: o III encontro de tradutores.

Fui então assistir à interessante conversa entre Ana Paula Tavares, José Luís Peixoto, Tanja Tarbuk e Michel Kegler (curador do evento).

Tanja Tarbuk, talentosa e dedicada tradutora do português para o croata, considera a tradução uma leitura muito profunda e José Luís Peixoto diz mesmo que uma tradução é uma variação sobre o que ele fez e que o tradutor é um leitor em profundidade.

Eu não faço tradução literária, mas gostaria de fazer tradução poética. Percebi que faz sentido. José Luís Peixoto entende que o tradutor poético deve ter ambição literária. Deve perceber que as palavras têm nuances que alteram o efeito da frase. Afirmou que dizer “bonito”, não é o mesmo que dizer “lindo” ou “formoso”.

É mesmo isso. As palavras têm gradações e captá-las exige um conhecimento e uma sensibilidade que assentam bem numa alma de poeta. Aquele que escreve os seus poemas procura a palavra certa. A palavra com a intensidade certa, o tamanho certo, o som certo. Esta precisão ajuda a arrancar do lugar mais profundo da sua emoção um vislumbre do que precisa de expressar. Assim, um poeta entrará na essência de um poema de outrem, com esse olhar, esse cuidado, essa profundidade.

Foi bom ouvir escritores falarem sobre tradução, sem filtros académicos. O que os incomoda, o que os surpreende, o que reconhecem como seu.

E, para finalizar, Peixoto cria esta metáfora para ilustrar o trabalho de tradução: é uma música composta para um instrumento passada para outro instrumento.

Voltei à carruagem de metro para regressar. Olhando para os campos da periferia do Porto, com aquele sol morno a brilhar na janela, fui transferindo composições de piano para violino, de clarinete para trompete. Enchi a minha cabeça de palavras. 

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terça-feira, janeiro 27, 2026

Expressões idiomáticas: ter para os alfinetes

Significado: Ter dinheiro para viver.

Origem: Hoje usamos a expressão «ter para os alfinetes» para falar de dinheiro guardado ou pequenas economias pessoais. Mas a origem desta frase revela muito sobre a autonomia financeira feminina no passado.

Nos séculos XVIII e XIX, os alfinetes eram artigos de luxo que as mulheres usavam como adornos. Estas pequenas peças decorativas custavam caro, e as mulheres precisavam de poupar especificamente para comprá-las. Esse dinheiro guardado ganhou o nome de «dinheiro dos alfinetes» ou simplesmente «alfinetes».

Com o tempo, os alfinetes transformaram-se em objetos utilitários e baratos, mas a expressão manteve-se viva na língua portuguesa. E não apenas na linguagem coloquial: chegou aos textos legais.

O Código Civil Português de 1867, aprovado por D. Luís e atribuído ao Visconde de Seabra, incluía um artigo que reconhecia este direito económico das mulheres casadas. 

O artigo 1104 estabelecia:

«A mulher não pode privar o marido, por convenção antenupcial, da administração dos bens do casal; mas pode reservar para si o direito de receber, a título de alfinetes, uma parte do rendimento dos seus bens, e dispor dela livremente, contanto que não exceda a terça dos ditos rendimentos líquidos.»

Repare bem neste artigo: a lei permitia ao marido administrar os bens do casal, mas reconhecia que a mulher tinha direito a uma pequena percentagem dos rendimentos dos seus próprios bens. Uma concessão limitada, sem dúvida, mas que garantia pelo menos algum dinheiro que ela controlava sozinha.

Este «dinheiro dos alfinetes» representava uma das poucas formas de autonomia económica que as mulheres casadas podiam reivindicar legalmente. A expressão que começou com adornos caros acabou por simbolizar algo maior: o direito de uma mulher ter recursos próprios, mesmo que fossem apenas «para os alfinetes».

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sexta-feira, dezembro 19, 2025

A noite mais longa

 

O dia 21 de dezembro assinala o Solstício de inverno, a noite mais longa do ano.

Ao longo dos séculos, as pessoas reuniam-se nesta noite.

Civilizações antigas acendiam fogueiras e decoravam as suas casas com ramos verdes. As famílias juntavam-se, faziam oferendas e pediam que o inverno passasse depressa.

Tradições diferentes, um único desejo: encontrar luz na escuridão.

Este ano, esse impulso é mais importante do que nunca.

A natureza recordou-nos de quão pequenos somos. Sentimo-nos impotentes perante forças que não controlamos.

Os problemas que enfrentamos não vão desaparecer de um dia para o outro, e as soluções exigem mais do que aquilo que fizemos até agora.

No entanto, os nossos ancestrais percebiam algo que muitas vezes nos esquecemos: somos mais fortes quando nos unimos.

Luz, equilíbrio, solidariedade não são apenas ideias bonitas. São a forma como sobrevivemos às noites mais longas.

Independemente do que celebram nesta época, desejo que encontrem calor. Desejo que encontrem as vossas pessoas.

Desejo-lhes paz, saúde e felicidade em 2026.

terça-feira, novembro 25, 2025

Betacismo


Já reparou que algumas pessoas que falam português, espanhol ou italiano usam apenas o som «B», mesmo quando as palavras são escritas com «V»?

Chama-se a isto betacismo. Não se trata de um sotaque, mas sim de um fenómeno linguístico, que está relacionado com a evolução das línguas românicas e contribui para a construção da nossa identidade cultural.

Em termos simples, o betacismo é uma mudança sonora onde o som «b» (a oclusiva bilabial sonora) e o som «v» (a fricativa labiodental sonora) se tornam num único som.

Essa característica linguística é comum em várias regiões, como o norte de Portugal, Espanha, sul da Itália e algumas regiões do nordeste e centro-oeste do Brasil.

Para entender por que razão isto acontece, precisamos de fazer uma viagem ao passado e olhar para a língua latina. 

No latim clássico, a letra «V» era originalmente usada para representar o som «U».

O som «V» que conhecemos hoje (a fricativa labiodental sonora) simplesmente não existia com a função que tem hoje.

Nas inscrições ou textos latinos antigos, vemos frequentemente palavras como «forvm», «meorvm», «devm» e «qvorum», onde o «V» representava o som «U».

A evolução do «V» e o aparecimento de um novo padrão

Assim, o alfabeto latino não apresentava originalmente as letras distintas «J» e «V» como as conhecemos hoje.

Essas letras foram introduzidas posteriormente em línguas como o português, sobretudo no século XVI, para diferenciar as funções vocálicas e consonânticas do «I» e do «U». 

Mudanças políticas e diferenciação linguística

O século XVI foi marcado por transformações políticas e culturais importantes.

A Reconquista Cristã permitiu um maior contacto com a língua e cultura árabe, além de concentrar o poder nas áreas centrais do reino.

Após a ascensão da dinastia de Avis, que reduziu a influência da nobreza do norte de Portugal, a variante do português falado nesta área central tornou-se o novo padrão linguístico.

Curiosamente, esta variante central já tinha desenvolvido o som distinto do «V» (a fricativa labiodental sonora).

No entanto, apesar de o norte ter perdido o seu poder político e cultural, as pessoas mantiveram a sua forma de falar.

Isso explica o motivo pelo qual o fenómeno do betacismo permanece presente no norte de Portugal.

Linguistas como Maria Alice Fernandes e Esperança Cardeira sugerem que esse «nivelamento» não foi acidental. Consideram que «pode ter sido consciente e destinado a distanciar-se propositadamente das variantes do norte, o português e o galego», enfatizando o seu papel na «construção de um símbolo de identidade típico da dinastia reinante — a Casa de Avis».

O betacismo hoje: um legado vivo 

Ainda hoje, os profundos laços históricos e geográficos do norte de Portugal com a Galiza ajudaram a preservar muitas características da língua antiga.

É por isso que, para pessoas como eu, do norte, estas pronúncias tradicionais são simplesmente a forma como falamos.

Uma pessoa com sotaque do norte que viaja para o sul percebe que o seu sotaque distinto é bastante percetível.

Às vezes, algumas pessoas do sul têm até dificuldade para entender certas palavras mais antigas usadas no norte.

Tendo crescido na região do Minho, que faz fronteira com a Galiza, essa ligação linguística é particularmente forte.

Entendemos perfeitamente o galego, muitas vezes usando as mesmas «palavras antigas» que estão próximas das suas raízes latinas.

Partilho consigo uma memória de infância: na vila onde nasci e cresci era mais fácil captar o sinal de televisão de Espanha. Por isso, em criança, vi os desenhos animados dobrados em espanhol.

Esse bilinguismo informal não só se revelou precioso na minha carreira profissional, mas, olhando para trás, reforçou e solidificou o meu próprio betacismo, tornando a fusão do «B» e do «V» uma parte natural da minha forma de falar.


Créditos da imagem: Scapin-Pompeii (Pixabay)

 Descrição da imagem: 

Fotografia de grande plano de uma antiga inscrição romana em pedra com texto em latim esculpido. As letras estão esculpidas em alfabeto romano maiúsculo (capitalis monumentalis) sobre pedra de cor clara. Os fragmentos de texto visíveis incluem palavras e frases parciais em latim, como ‘CONSERVAION’, ‘DIVSAMFIDVOMVIR’, ‘COLONIAHHONORI’, ‘SPECTACVLADESVA’ e ‘INPERPETVOMDEDI’. As letras esculpidas apresentam profundidade e sombra, criando textura na superfície da pedra.


quinta-feira, agosto 28, 2025

Saudade

 


Saudade - s.f. desiderium, dolor; ter saudades, desiderio teneri, desiderio flagrare, desiderio confici; ter saudades de alguém, desiderare aliquem, ex desiderio alicius laborare.

Dicionário Português-Latim/Latim-Português, Porto, Porto Editora, 2005

Foto de wirestock na Freepick

Descrição da imagem: A imagem mostra uma pessoa de pé na praia, de costas para a câmara, a olhar para o mar durante o nascer ou o pôr do sol. O céu está preenchido com nuvens cinzentas e um brilho suave e alaranjado, enquanto o sol, baixo no horizonte, projeta um reflexo cintilante na superfície da água e na areia molhada. A silhueta da pessoa destaca-se contra a luz, dando um ar calmo e contemplativo à fotografia.

 P.S. Encontra mais conteúdos sobre linguagem e tradução da minha autoria, aqui.


quarta-feira, julho 30, 2025

Era uma vez


antigamente o sol nascia ao meu lado 
navegava docemente nos meus sonhos 
e no mar o horizonte era o fio 
onde um equilibrista passeava sobre pontas 

um dia mais tarde voaram os pássaros 
destino incerto  sem astrolábios
nunca mais vimos aquelas oliveiras 
dos prados do passado onde trepámos 

hoje chegou o tempo das chuvadas 
os dias escorrem nas janelas apressados 
do lado de cá onde agora estamos 

nunca mais ouvimos o vento 
a sibilar entre as espigas de milho 
nunca mais jogámos às escondidas com a alegria 

 Foto de wirestock na Freepick 

Descrição da imagem: Um barco ‘vintage’ castanho claro, possivelmente de fibra de vidro ou alumínio, está encalhado e parece abandonado numa encosta seca, rochosa e arenosa. O barco possui uma pequena cabine com janelas partidas e uma corrente enferrujada presa à proa. Ao fundo, há algumas árvores verde-escuras e um céu pálido e nublado. 

 P.S. Encontra mais conteúdos sobre linguagem e tradução da minha autoria, aqui.

quinta-feira, junho 05, 2025

Cais

 

Sei ainda que sabor tinham os dias quando te conhecia

Guardo sempre o melhor de cada estação
No cais de embarque os comboios chegam e partem
E vou dizendo adeus a alguns rostos nas janelas

Guardo em mim sempre tudo o que me ensinam
Guardo mais que tudo o carinho com que os olhei um dia

Esqueci o que veio depois como se nunca tivesse vindo
E saí na estação que entendi ser a minha

E agora estou em casa e olho tranquila os dias
Que passam como comboios de alta velocidade
E levam e trazem sonhos e pessoas

E a vida sorri sempre sempre sempre e apesar


Imagem de wirestock em Freepick

Descrição da imagem: Fotografia a preto e branco de uma ponte ferroviária antiga, com carris enferrujados no centro que se estendem para uma área arborizada. A estrutura metálica da ponte enquadra a vista, criando uma sensação de profundidade.


segunda-feira, março 10, 2025

A escrita de poesia e o poder da linguagem

 

Fotografia a preto e branco de uma mão de pele escura segurando uma caneta, escrevendo numa página em branco de um caderno aberto. O foco é a ponta da caneta e a textura do papel.

Já alguma vez lhe ocorreu que o processo de criação de poesia é uma arte complexa e desafiante?

À primeira vista, escrever poesia pode parecer simples, mas olhando com mais atenção, percebemos a profundidade e a precisão necessárias.

Se pensarmos em alguém que escreve poesia, seguindo modelos clássicos como o soneto, percebemos que a escolha das palavras para expressar sentimentos é bastante criteriosa e sujeita a limites estruturais.

Vamos, então, explorar a complexidade da escrita de poesia, utilizando como exemplo a estrutura dos sonetos.

Harmonia Estrutural

São compostos por linhas de 10 sílabas, estruturadas ritmicamente. Cada palavra conta e deve encaixar-se perfeitamente no esquema métrico.

Forma

Seguem o pentâmetro iâmbico, com um ritmo e fluidez que exigem precisão. A forma é rígida, mas permite uma expressão rica e variada.

Mensagem

Transmitem emoções e temas complexos com profundidade. Em apenas 14 linhas, o poeta deve capturar a essência de um sentimento ou ideia.

Escolha de Palavras

São ricos em metáforas, imagens e significado. Cada palavra é escolhida cuidadosamente para evocar uma emoção ou pintar uma imagem vívida.

Emoção

Exploram emoções como o amor, a tristeza ou a saudade. O poeta deve ser capaz de tocar o coração do leitor com a sua escolha de palavras.

Equilíbrio

Equilibram a criatividade numa forma rígida. O desafio está em ser original dentro de limites estruturais bem definidos.

Por isso, a poesia requer um bom domínio da linguagem e uma compreensão profunda das palavras para inspirar sentimentos.

É isto que faz da linguagem um instrumento tão poderoso e complexo, e por isso mesmo, o toque humano é essencial e insubstituível.

 

Image by rawpixel.com on Freepick

Descrição da Imagem: Fotografia a preto e branco de uma mão de pele escura a segurar uma caneta, a escrever numa página em branco de um caderno aberto. O foco está na ponta da caneta e na textura do papel.


sexta-feira, janeiro 17, 2025

Solitas, solitatis

 

A Saudade é um sentimento universal; mas, só na alma lusitana, atinge as alturas supremas da Poesia, contendo uma concepção da vida e da existência.

Pascoaes, T. (1986). Da saudade. Em A. Botelho & A.B. Teixeira (Orgs.). Filosofia da Saudade (p.124-144). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. (Original publicado em 1952).


Habitados a tal ponto pela saudade, os portugueses renunciaram a defini-la. Da saudade fizeram uma espécie de enigma, essência do seu sentimento da existência, a ponto de a transformarem num ‘mito’. É essa mitificação de um sentimento universal que dá à estranha melancolia sem tragédia que é o seu verdadeiro conteúdo cultural, e faz dela o brasão da sensibilidade portuguesa.

Lourenço, E. (1999). Mitologia da Saudade: seguido de Portugal como destino. São Paulo: Companhia das Letras.

 

Foto de João Coutinho

Descrição da imagem: Fotografia de dois barcos de madeira antigos, com suas proas rústicas visíveis, ancorados em água coberta por uma densa camada de lentilhas-d'água verde-vibrante. Uma corrente de metal enferrujada pende de um dos barcos.


terça-feira, dezembro 31, 2024

Amicitia

 


Pode ser esclarecedor recordar que o termo latino para amizade, amicitia, deriva da raiz am, que no latim popular designa «mãe» (amma) e «ama» (mama). 

A etimologia da amizade reenvia-nos, assim, não para uma qualquer experiência casual, mas para a memória daquela afeição primeira que estrutura silenciosamente a existência. 

Por isso, na sua espantosa leveza, e sem alardes, a amizade dialoga com coisas muito fundas dentro de nós: faz-nos reviver o primeiro amor com que fomos (ou não fomos) amados; toca as nossas feridas, mesmo as que não conseguimos verbalizar; transmite-nos confiança para sermos o que somos e como somos; estimula-nos a progredir vida fora.


Nem todas as nossas amizades chegam a tomar consciência da extraordinária viagem interior que as mobiliza. Porém, mesmo quando a amizade parece simplesmente prosaica, é este programa que realiza, pois há sempre um instante em que os verdadeiros amigos se revelam como aqueles que estão dispostos a acompanhar-nos aconteça o que acontecer.


Não esperamos nada dos nossos amigos, e essa franqueza é fundamental. Mas, não esperando nada, esperamos tudo, na medida em que a sua existência nos permite existir. A doçura da amizade é equivalente a esse seu rigor mais infrangível: o meu amigo é este próximo que não deixa de ser distante. Mas é também o distante que sabe tornar-se próximo e íntimo. 

Por isso, não é a posse que conta na amizade, mas a afeição, a dádiva atuada no desprendimento.

José Tolentino Mendonça, in 'O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas'

Foto: António Barbosa

quinta-feira, dezembro 19, 2024

Escrever postais para o mundo

 


O que é que os postais e a legendagem têm em comum? Com uma imagem e um espaço reduzido, precisamos transmitir uma mensagem, mantendo a sua essência e fazendo-a viajar através das culturas. No Café Saudade, encontrei alguns postais "vintage" e pensei que o envio de mensagens nestes pequenos pedaços de papel tem algumas semelhanças com o meu trabalho como tradutora e legendadora. A tradução e a legendagem são como escrever postais para o mundo. Esta época é propícia para celebrar a capacidade de a língua de nos ligar aos outros, seja através de um postal escrito à mão, de um filme ou de uma boa conversa. Brindemos a um novo ano cheio de relações com significado, línguas partilhadas e harmonia global. P.S. este é o Café Saudade, em Sintra, Portugal.

P.S. Para saber mais sobre o meu trabalho na área da legendagem, espreite aqui. Foto de Helio Eudoro

sexta-feira, outubro 04, 2024

Dos livros

A verdade é que o leitor mudou. 

Os livros, hoje, são produtos de consumo. 

As pessoas compram livros como compram um eletrodoméstico, ou uma vitamina. 

O livro tem que servir para alguma coisa, tem que resolver um problema específico. 

Em outras palavras, as pessoas compram o livro para se enganarem.

Patricia Melo em entrevista à revista Ler


Escrevo também no blogue da minha página profissional. Se os temas relacionados com tradução lhe interessam, encontra-me aqui.




sexta-feira, julho 26, 2024

Um carta

Queria que soubesses que morei na tua casa. 


Andei contigo na escola primária e saí muitas vezes com os teus sapatos. 


Sei bem dos passos inseguros. 


Sei do espanto e do mundo silencioso no canto da sala. 


Lembro-me do fascínio pelas casas grandes e pelos segredos escondidos dentro dos armários.


Colei muitas vezes o nariz ao vidro da tua janela e pensei que também gostaria de brincar na rua. 


Se hoje existe um lugar onde nenhuma linguagem se fala e se nesse lugar nos encontramos inevitavelmente, é porque percorremos longas distâncias lado a lado.



Escrevo também no blogue da minha página profissional. Se os temas relacionados com tradução lhe interessam, encontra-me aqui.

terça-feira, junho 25, 2024

Sete vidas

 


Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,

por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -

um sol que de repente acrescentava cal aos muros,

um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.

 

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa

como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,

antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde

bem teria gostado de chamar-me outra coisa - ou

de ser gato, para poder ter mais que uma vida.

 

Maria do Rosário Pedreira in Nenhum Nome Depois


Foto de João Coutinho


P.S. Para ler mais sobre língua portuguesa, visite o meu blogue profissional FAZT.


segunda-feira, abril 22, 2024

Simplesmente

 

Simplesmente palavras nos meandros dos teus olhos

Simplesmente contornos de carícias à solta pelo vento

 

Nem mais nem menos que lábios voláteis

beijando os teus cabelos

Nem mais nem menos que dedos transparentes

na pele do teu rosto

 

Não sonhes num minuto escapar do que procuras

Nem sonhes que caminhos no futuro não te farão chorar

Não digas não demandes as origens do planeta

Nem pretendas com regras e livros sinuosos

dizer do que não sabes

Não sabes o segundo na fracção de tempo imediato

Nem sabes que dicionário consultar para dizeres

 

Que tudo o que me digas não é nada

E chega rir sorrir trocar coisas tão vãs como trocamos

Porque nos meandros dos teus olhos cruzam-se os meus olhos

quinta-feira, março 28, 2024

Não deixeis um grande amor

 

Aos poucos apercebi-me do modo

desolado incerto quase eventual

com que morava em minha casa

 

assim ele habitou cidades

desprovidas

ou os portos levantinos a que

se ligava apenas por saber

que nada ali o esperava

 

assim se reteve nos campos

dos ciganos sem nunca conseguir

ser um deles:

nas suas rixas insanas

nas danças de navalhas

na arte de domar a dor

chegou a ser o melhor

mas era ainda a criança perdida

que protesta inocência

dentro do escuro

 

não será por muito tempo

assim eu pensava

e pelas falésias já a solidão

dele vinha

 

não será por muito tempo

assim eu pensava

mas ele sorria e uma a uma

as evidências negava

 

por isso vos digo

não deixeis o vosso grande amor

refém dos mal-entendidos

do mundo

 

José Tolentino Mendonça in Longe Não Sabia


Foto de João Coutinho


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quinta-feira, março 21, 2024

Sinestesia

 


com asas de gaivota

fugimos lépidos delicados

da gravidade de isaac

 

na mesa da cozinha

estava um raio de sol

maças vermelhas

uma tarde branca

 

o cheiro a canela pelo ar

embrulhava-se em paixão

com o piano

que voou da sala

foi há muito tempo


um dia lento e aromático

na época das cerejas e dos sonhos.


Foto de João Coutinho


P.S. Para ler outros textos da minha autoria sobre Língua, visite o meu blogue FAZT