O cesto tinha quatro pés pequenos e duas tampas que fechavam com um encaixe. Vime, velatura laranja, o género de coisa que parece ter vindo de um mercado numa terra onde se gostaria de passar um fim de semana.
A minha
mãe tinha dezenas assim. Cestos, cabazes, tabuleiros, palha e cana e coisas
feitas à mão. A casa era quase um museu de artesanato. Nunca a vi mais feliz do
que quando encontrava um cesto novo.
O bicho da madeira atacou o cesto de piquenique.
Durante semanas mudei-o de lugar, lavei-o, vi o pó a
acumular-se na prateleira. Um dos pés tinha sido completamente devorado por
dentro. Quando finalmente se partiu, fiquei ali parada a segurar um pequeno
cilindro oco de vime e percebi que a decisão já tinha sido tomada por mim.
Pu-lo no caixote do lixo.
Depois, fiquei à janela um momento.
Ela não o teria deitado fora. Teria encontrado um canto para
ele, uma razão.
Guardava as coisas para além da sua utilidade porque as
coisas, para ela, nunca foram apenas úteis. Eram conversas. Eram a memória da
tarde em que as comprou, com quem estava, o que o tempo fazia lá fora.
Ninguém precisava de tantos cestos. Mas ela comprava-os na
mesma, e a casa estava cheia da sua alegria.
Ainda os compro, às vezes. Vejo um numa feira e penso: ela
vai gostar deste. Pego no telemóvel para lhe mandar uma fotografia, e depois
lembro-me. O pensamento acaba em tristeza. A casa já não existe. A porta onde
eu batia já não está lá.
Há meses em que quase me esqueço. Depois, um pequeno objeto,
banal, capta a luz de uma certa forma, e sofro a sua falta como se tivesse
acontecido agora. A saudade não passa com o tempo.
O cesto já era pó. Eu sei. O que atirei para o caixote verde
não foi o cesto. Foi a última versão de uma conversa que nunca terminámos, e o
silêncio que fica quando se percebe que nunca se poderá terminar essa conversa.
A memória não vive apenas nas coisas que guardamos. Vive nas que não conseguimos guardar.
