terça-feira, dezembro 31, 2024

Amicitia

 


Pode ser esclarecedor recordar que o termo latino para amizade, amicitia, deriva da raiz am, que no latim popular designa «mãe» (amma) e «ama» (mama). 

A etimologia da amizade reenvia-nos, assim, não para uma qualquer experiência casual, mas para a memória daquela afeição primeira que estrutura silenciosamente a existência. 

Por isso, na sua espantosa leveza, e sem alardes, a amizade dialoga com coisas muito fundas dentro de nós: faz-nos reviver o primeiro amor com que fomos (ou não fomos) amados; toca as nossas feridas, mesmo as que não conseguimos verbalizar; transmite-nos confiança para sermos o que somos e como somos; estimula-nos a progredir vida fora.


Nem todas as nossas amizades chegam a tomar consciência da extraordinária viagem interior que as mobiliza. Porém, mesmo quando a amizade parece simplesmente prosaica, é este programa que realiza, pois há sempre um instante em que os verdadeiros amigos se revelam como aqueles que estão dispostos a acompanhar-nos aconteça o que acontecer.


Não esperamos nada dos nossos amigos, e essa franqueza é fundamental. Mas, não esperando nada, esperamos tudo, na medida em que a sua existência nos permite existir. A doçura da amizade é equivalente a esse seu rigor mais infrangível: o meu amigo é este próximo que não deixa de ser distante. Mas é também o distante que sabe tornar-se próximo e íntimo. 

Por isso, não é a posse que conta na amizade, mas a afeição, a dádiva atuada no desprendimento.

José Tolentino Mendonça, in 'O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas'

Foto: António Barbosa

quinta-feira, dezembro 19, 2024

Escrever postais para o mundo

 


O que é que os postais e a legendagem têm em comum? Com uma imagem e um espaço reduzido, precisamos transmitir uma mensagem, mantendo a sua essência e fazendo-a viajar através das culturas. No Café Saudade, encontrei alguns postais "vintage" e pensei que o envio de mensagens nestes pequenos pedaços de papel tem algumas semelhanças com o meu trabalho como tradutora e legendadora. A tradução e a legendagem são como escrever postais para o mundo. Esta época é propícia para celebrar a capacidade de a língua de nos ligar aos outros, seja através de um postal escrito à mão, de um filme ou de uma boa conversa. Brindemos a um novo ano cheio de relações com significado, línguas partilhadas e harmonia global. P.S. este é o Café Saudade, em Sintra, Portugal.

P.S. Para saber mais sobre o meu trabalho na área da legendagem, espreite aqui. Foto de Helio Eudoro

sexta-feira, outubro 04, 2024

Dos livros

A verdade é que o leitor mudou. 

Os livros, hoje, são produtos de consumo. 

As pessoas compram livros como compram um eletrodoméstico, ou uma vitamina. 

O livro tem que servir para alguma coisa, tem que resolver um problema específico. 

Em outras palavras, as pessoas compram o livro para se enganarem.

Patricia Melo em entrevista à revista Ler


Escrevo também no blogue da minha página profissional. Se os temas relacionados com tradução lhe interessam, encontra-me aqui.




sexta-feira, julho 26, 2024

Um carta

Queria que soubesses que morei na tua casa. 


Andei contigo na escola primária e saí muitas vezes com os teus sapatos. 


Sei bem dos passos inseguros. 


Sei do espanto e do mundo silencioso no canto da sala. 


Lembro-me do fascínio pelas casas grandes e pelos segredos escondidos dentro dos armários.


Colei muitas vezes o nariz ao vidro da tua janela e pensei que também gostaria de brincar na rua. 


Se hoje existe um lugar onde nenhuma linguagem se fala e se nesse lugar nos encontramos inevitavelmente, é porque percorremos longas distâncias lado a lado.



Escrevo também no blogue da minha página profissional. Se os temas relacionados com tradução lhe interessam, encontra-me aqui.

terça-feira, junho 25, 2024

Sete vidas

 


Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,

por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -

um sol que de repente acrescentava cal aos muros,

um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.

 

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa

como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,

antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde

bem teria gostado de chamar-me outra coisa - ou

de ser gato, para poder ter mais que uma vida.

 

Maria do Rosário Pedreira in Nenhum Nome Depois


Foto de João Coutinho


P.S. Para ler mais sobre língua portuguesa, visite o meu blogue profissional FAZT.


segunda-feira, abril 22, 2024

Simplesmente

 

Simplesmente palavras nos meandros dos teus olhos

Simplesmente contornos de carícias à solta pelo vento

 

Nem mais nem menos que lábios voláteis

beijando os teus cabelos

Nem mais nem menos que dedos transparentes

na pele do teu rosto

 

Não sonhes num minuto escapar do que procuras

Nem sonhes que caminhos no futuro não te farão chorar

Não digas não demandes as origens do planeta

Nem pretendas com regras e livros sinuosos

dizer do que não sabes

Não sabes o segundo na fracção de tempo imediato

Nem sabes que dicionário consultar para dizeres

 

Que tudo o que me digas não é nada

E chega rir sorrir trocar coisas tão vãs como trocamos

Porque nos meandros dos teus olhos cruzam-se os meus olhos

quinta-feira, março 28, 2024

Não deixeis um grande amor

 

Aos poucos apercebi-me do modo

desolado incerto quase eventual

com que morava em minha casa

 

assim ele habitou cidades

desprovidas

ou os portos levantinos a que

se ligava apenas por saber

que nada ali o esperava

 

assim se reteve nos campos

dos ciganos sem nunca conseguir

ser um deles:

nas suas rixas insanas

nas danças de navalhas

na arte de domar a dor

chegou a ser o melhor

mas era ainda a criança perdida

que protesta inocência

dentro do escuro

 

não será por muito tempo

assim eu pensava

e pelas falésias já a solidão

dele vinha

 

não será por muito tempo

assim eu pensava

mas ele sorria e uma a uma

as evidências negava

 

por isso vos digo

não deixeis o vosso grande amor

refém dos mal-entendidos

do mundo

 

José Tolentino Mendonça in Longe Não Sabia


Foto de João Coutinho


P.S. Para ler mais sobre língua portuguesa, visite o meu blogue profissional FAZT.


quinta-feira, março 21, 2024

Sinestesia

 


com asas de gaivota

fugimos lépidos delicados

da gravidade de isaac

 

na mesa da cozinha

estava um raio de sol

maças vermelhas

uma tarde branca

 

o cheiro a canela pelo ar

embrulhava-se em paixão

com o piano

que voou da sala

foi há muito tempo


um dia lento e aromático

na época das cerejas e dos sonhos.


Foto de João Coutinho


P.S. Para ler outros textos da minha autoria sobre Língua, visite o meu blogue FAZT

terça-feira, janeiro 02, 2024

Síndroma do olho eletrónico

É impossível fazer uma reportagem da nossa vida e vivê-la ao mesmo tempo.

Tirei uns dias na última semana do ano para relaxar. Fiquei longe das redes sociais a maior parte do tempo.

 De qualquer forma, tirei estes dias para estar presente na minha vida, livre de qualquer pressão para escrever.

Queria apenas viver o momento e guardar boas recordações na minha memória.

 Esta fotografia é uma das poucas que tirei.

 Adoro esta praia e gostei deste sinal de boas-vindas. Quando o vi ali, parecia estar a dar as boas-vindas ao novo ano. A uma nova perspetiva. Ou a algo novo e cheio de esperança.

 Um dia, estava a visitar o Castelo de Praga, e alguém do grupo estava sempre a parar para tirar fotografias. Esta situação obrigava o guia a interromper constantemente as explicações. A pessoa estava a viajar sozinha e todos nós sentimos que fazer aquela reportagem era importante para ela

Começámos então um debate sobre esta espécie de obsessão por tirar fotografias.

O guia referiu um texto de Umberto Eco sobre o assunto.

O artigo de Eco fala da "síndrome do olho eletrónico". Define-a como o desejo de estar presente com um olho mecânico em vez de um cérebro.

O ensaio reflete sobre a compulsão de fotografar e filmar tudo e como isso nos afasta de viver efetivamente o momento.

Eco pensa que as pessoas estão demasiado concentradas em guardar memórias nos seus telemóveis e estão a perder a capacidade de as apreciar e guardar nas suas mentes.

Por vezes, é essencial manter um registo do momento.

Normalmente, é mais importante viver.

Feliz 2024.


P.S. Chronicles of a liquid society by Umberto Eco