sexta-feira, dezembro 19, 2025

A noite mais longa

 

O dia 21 de dezembro assinala o Solstício de inverno, a noite mais longa do ano.

Ao longo dos séculos, as pessoas reuniam-se nesta noite.

Civilizações antigas acendiam fogueiras e decoravam as suas casas com ramos verdes. As famílias juntavam-se, faziam oferendas e pediam que o inverno passasse depressa.

Tradições diferentes, um único desejo: encontrar luz na escuridão.

Este ano, esse impulso é mais importante do que nunca.

A natureza recordou-nos de quão pequenos somos. Sentimo-nos impotentes perante forças que não controlamos.

Os problemas que enfrentamos não vão desaparecer de um dia para o outro, e as soluções exigem mais do que aquilo que fizemos até agora.

No entanto, os nossos ancestrais percebiam algo que muitas vezes nos esquecemos: somos mais fortes quando nos unimos.

Luz, equilíbrio, solidariedade não são apenas ideias bonitas. São a forma como sobrevivemos às noites mais longas.

Independemente do que celebram nesta época, desejo que encontrem calor. Desejo que encontrem as vossas pessoas.

Desejo-lhes paz, saúde e felicidade em 2026.

terça-feira, novembro 25, 2025

Betacismo


Já reparou que algumas pessoas que falam português, espanhol ou italiano usam apenas o som «B», mesmo quando as palavras são escritas com «V»?

Chama-se a isto betacismo. Não se trata de um sotaque, mas sim de um fenómeno linguístico, que está relacionado com a evolução das línguas românicas e contribui para a construção da nossa identidade cultural.

Em termos simples, o betacismo é uma mudança sonora onde o som «b» (a oclusiva bilabial sonora) e o som «v» (a fricativa labiodental sonora) se tornam num único som.

Essa característica linguística é comum em várias regiões, como o norte de Portugal, Espanha, sul da Itália e algumas regiões do nordeste e centro-oeste do Brasil.

Para entender por que razão isto acontece, precisamos de fazer uma viagem ao passado e olhar para a língua latina. 

No latim clássico, a letra «V» era originalmente usada para representar o som «U».

O som «V» que conhecemos hoje (a fricativa labiodental sonora) simplesmente não existia com a função que tem hoje.

Nas inscrições ou textos latinos antigos, vemos frequentemente palavras como «forvm», «meorvm», «devm» e «qvorum», onde o «V» representava o som «U».

A evolução do «V» e o aparecimento de um novo padrão

Assim, o alfabeto latino não apresentava originalmente as letras distintas «J» e «V» como as conhecemos hoje.

Essas letras foram introduzidas posteriormente em línguas como o português, sobretudo no século XVI, para diferenciar as funções vocálicas e consonânticas do «I» e do «U». 

Mudanças políticas e diferenciação linguística

O século XVI foi marcado por transformações políticas e culturais importantes.

A Reconquista Cristã permitiu um maior contacto com a língua e cultura árabe, além de concentrar o poder nas áreas centrais do reino.

Após a ascensão da dinastia de Avis, que reduziu a influência da nobreza do norte de Portugal, a variante do português falado nesta área central tornou-se o novo padrão linguístico.

Curiosamente, esta variante central já tinha desenvolvido o som distinto do «V» (a fricativa labiodental sonora).

No entanto, apesar de o norte ter perdido o seu poder político e cultural, as pessoas mantiveram a sua forma de falar.

Isso explica o motivo pelo qual o fenómeno do betacismo permanece presente no norte de Portugal.

Linguistas como Maria Alice Fernandes e Esperança Cardeira sugerem que esse «nivelamento» não foi acidental. Consideram que «pode ter sido consciente e destinado a distanciar-se propositadamente das variantes do norte, o português e o galego», enfatizando o seu papel na «construção de um símbolo de identidade típico da dinastia reinante — a Casa de Avis».

O betacismo hoje: um legado vivo 

Ainda hoje, os profundos laços históricos e geográficos do norte de Portugal com a Galiza ajudaram a preservar muitas características da língua antiga.

É por isso que, para pessoas como eu, do norte, estas pronúncias tradicionais são simplesmente a forma como falamos.

Uma pessoa com sotaque do norte que viaja para o sul percebe que o seu sotaque distinto é bastante percetível.

Às vezes, algumas pessoas do sul têm até dificuldade para entender certas palavras mais antigas usadas no norte.

Tendo crescido na região do Minho, que faz fronteira com a Galiza, essa ligação linguística é particularmente forte.

Entendemos perfeitamente o galego, muitas vezes usando as mesmas «palavras antigas» que estão próximas das suas raízes latinas.

Partilho consigo uma memória de infância: na vila onde nasci e cresci era mais fácil captar o sinal de televisão de Espanha. Por isso, em criança, vi os desenhos animados dobrados em espanhol.

Esse bilinguismo informal não só se revelou precioso na minha carreira profissional, mas, olhando para trás, reforçou e solidificou o meu próprio betacismo, tornando a fusão do «B» e do «V» uma parte natural da minha forma de falar.


Créditos da imagem: Scapin-Pompeii (Pixabay)

 Descrição da imagem: 

Fotografia de grande plano de uma antiga inscrição romana em pedra com texto em latim esculpido. As letras estão esculpidas em alfabeto romano maiúsculo (capitalis monumentalis) sobre pedra de cor clara. Os fragmentos de texto visíveis incluem palavras e frases parciais em latim, como ‘CONSERVAION’, ‘DIVSAMFIDVOMVIR’, ‘COLONIAHHONORI’, ‘SPECTACVLADESVA’ e ‘INPERPETVOMDEDI’. As letras esculpidas apresentam profundidade e sombra, criando textura na superfície da pedra.


quinta-feira, agosto 28, 2025

Saudade

 


Saudade - s.f. desiderium, dolor; ter saudades, desiderio teneri, desiderio flagrare, desiderio confici; ter saudades de alguém, desiderare aliquem, ex desiderio alicius laborare.

Dicionário Português-Latim/Latim-Português, Porto, Porto Editora, 2005

Foto de wirestock na Freepick

Descrição da imagem: A imagem mostra uma pessoa de pé na praia, de costas para a câmara, a olhar para o mar durante o nascer ou o pôr do sol. O céu está preenchido com nuvens cinzentas e um brilho suave e alaranjado, enquanto o sol, baixo no horizonte, projeta um reflexo cintilante na superfície da água e na areia molhada. A silhueta da pessoa destaca-se contra a luz, dando um ar calmo e contemplativo à fotografia.

 P.S. Encontra mais conteúdos sobre linguagem e tradução da minha autoria, aqui.


quarta-feira, julho 30, 2025

Era uma vez


antigamente o sol nascia ao meu lado 
navegava docemente nos meus sonhos 
e no mar o horizonte era o fio 
onde um equilibrista passeava sobre pontas 

um dia mais tarde voaram os pássaros 
destino incerto  sem astrolábios
nunca mais vimos aquelas oliveiras 
dos prados do passado onde trepámos 

hoje chegou o tempo das chuvadas 
os dias escorrem nas janelas apressados 
do lado de cá onde agora estamos 

nunca mais ouvimos o vento 
a sibilar entre as espigas de milho 
nunca mais jogámos às escondidas com a alegria 

 Foto de wirestock na Freepick 

Descrição da imagem: Um barco ‘vintage’ castanho claro, possivelmente de fibra de vidro ou alumínio, está encalhado e parece abandonado numa encosta seca, rochosa e arenosa. O barco possui uma pequena cabine com janelas partidas e uma corrente enferrujada presa à proa. Ao fundo, há algumas árvores verde-escuras e um céu pálido e nublado. 

 P.S. Encontra mais conteúdos sobre linguagem e tradução da minha autoria, aqui.

quinta-feira, junho 05, 2025

Cais

 

Sei ainda que sabor tinham os dias quando te conhecia

Guardo sempre o melhor de cada estação
No cais de embarque os comboios chegam e partem
E vou dizendo adeus a alguns rostos nas janelas

Guardo em mim sempre tudo o que me ensinam
Guardo mais que tudo o carinho com que os olhei um dia

Esqueci o que veio depois como se nunca tivesse vindo
E saí na estação que entendi ser a minha

E agora estou em casa e olho tranquila os dias
Que passam como comboios de alta velocidade
E levam e trazem sonhos e pessoas

E a vida sorri sempre sempre sempre e apesar


Imagem de wirestock em Freepick

Descrição da imagem: Fotografia a preto e branco de uma ponte ferroviária antiga, com carris enferrujados no centro que se estendem para uma área arborizada. A estrutura metálica da ponte enquadra a vista, criando uma sensação de profundidade.


segunda-feira, março 10, 2025

A escrita de poesia e o poder da linguagem

 

Fotografia a preto e branco de uma mão de pele escura segurando uma caneta, escrevendo numa página em branco de um caderno aberto. O foco é a ponta da caneta e a textura do papel.

Já alguma vez lhe ocorreu que o processo de criação de poesia é uma arte complexa e desafiante?

À primeira vista, escrever poesia pode parecer simples, mas olhando com mais atenção, percebemos a profundidade e a precisão necessárias.

Se pensarmos em alguém que escreve poesia, seguindo modelos clássicos como o soneto, percebemos que a escolha das palavras para expressar sentimentos é bastante criteriosa e sujeita a limites estruturais.

Vamos, então, explorar a complexidade da escrita de poesia, utilizando como exemplo a estrutura dos sonetos.

Harmonia Estrutural

São compostos por linhas de 10 sílabas, estruturadas ritmicamente. Cada palavra conta e deve encaixar-se perfeitamente no esquema métrico.

Forma

Seguem o pentâmetro iâmbico, com um ritmo e fluidez que exigem precisão. A forma é rígida, mas permite uma expressão rica e variada.

Mensagem

Transmitem emoções e temas complexos com profundidade. Em apenas 14 linhas, o poeta deve capturar a essência de um sentimento ou ideia.

Escolha de Palavras

São ricos em metáforas, imagens e significado. Cada palavra é escolhida cuidadosamente para evocar uma emoção ou pintar uma imagem vívida.

Emoção

Exploram emoções como o amor, a tristeza ou a saudade. O poeta deve ser capaz de tocar o coração do leitor com a sua escolha de palavras.

Equilíbrio

Equilibram a criatividade numa forma rígida. O desafio está em ser original dentro de limites estruturais bem definidos.

Por isso, a poesia requer um bom domínio da linguagem e uma compreensão profunda das palavras para inspirar sentimentos.

É isto que faz da linguagem um instrumento tão poderoso e complexo, e por isso mesmo, o toque humano é essencial e insubstituível.

 

Image by rawpixel.com on Freepick

Descrição da Imagem: Fotografia a preto e branco de uma mão de pele escura a segurar uma caneta, a escrever numa página em branco de um caderno aberto. O foco está na ponta da caneta e na textura do papel.


sexta-feira, janeiro 17, 2025

Solitas, solitatis

 

A Saudade é um sentimento universal; mas, só na alma lusitana, atinge as alturas supremas da Poesia, contendo uma concepção da vida e da existência.

Pascoaes, T. (1986). Da saudade. Em A. Botelho & A.B. Teixeira (Orgs.). Filosofia da Saudade (p.124-144). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. (Original publicado em 1952).


Habitados a tal ponto pela saudade, os portugueses renunciaram a defini-la. Da saudade fizeram uma espécie de enigma, essência do seu sentimento da existência, a ponto de a transformarem num ‘mito’. É essa mitificação de um sentimento universal que dá à estranha melancolia sem tragédia que é o seu verdadeiro conteúdo cultural, e faz dela o brasão da sensibilidade portuguesa.

Lourenço, E. (1999). Mitologia da Saudade: seguido de Portugal como destino. São Paulo: Companhia das Letras.

 

Foto de João Coutinho

Descrição da imagem: Fotografia de dois barcos de madeira antigos, com suas proas rústicas visíveis, ancorados em água coberta por uma densa camada de lentilhas-d'água verde-vibrante. Uma corrente de metal enferrujada pende de um dos barcos.