
Há um motivo de seda nas cordas
do coração. Puxo-o devagar, com os dedos
da alma, e o que aparece na mão
são coisas simples, confissões, segredos.
Mas se visto com essa seda a tua
imagem, o que os meus dedos tocam
é mais real do que a vida, e tem
o teu corpo, os teus lábios, a tua voz.
Desfaço assim, o embrulho da estrofe,
e deito fora os cordéis da retórica,
o papel das figuras, a cola da música.
É melhor assim, quando o poema fica
às escuras no silêncio da casa, e me
deixa ouvir os teus passos, tão junto a mim.
Nuno Júdice in O breve sentimento do eterno
Foto de Luís Miguel Duarte