segunda-feira, junho 30, 2014

Dez anos de saudade


O Sítio da Saudade faz hoje dez anos. A partir de uma certa idade o tempo voa e parece que foi ontem. Mas não foi. Neste período aconteceu muita coisa. O blog, naquele tempo vivo e cheio de actividade, foi perdendo o seu protagonismo, vítima das tendências e vítima dos ritmos de vida e dos interesses de Monalisa.
Foi criado por uma razão desagradável: a necessidade de ficar quieta em casa, devido a uma operação. Foi uma porta que abri para uma multidão de gente que eu levei para dentro da minha sala e, em alguns casos, poucos, a relação manteve-se até hoje, tendo apenas sido transferida para a coisa do momento, o facebook. 

Mudei-lhe o aspecto, passou de preto a branco, mas perdi os links todos que levei anos a coleccionar, tendo ficado resumido a um lugar solitário, sem espaço para interacção com terceiros, um quase diário privado - afinal, o aspecto que eu lhe queria dar desde o início. O meu sítio da saudade, onde registo as coisas que não quero esquecer, as emoções que vou sentindo e que reconheço nas palavras dos nossos poetas, as coisas que acontecem e que de alguma forma me emocionam, o meu sítio público escondido, o lugar do meu alter-ego, onde contorno o meu carácter reservado e liberto uma Monalisa, que querendo ser discreta, quer ao mesmo tempo dizer alguma coisa de si.

Entretanto, a minha vida foi também seguindo o seu caminho, um caminho normal, igual ao de toda a gente, com dores dilacerantes e alegrias explosivas, mas hoje com uma serenidade e uma sabedoria muito maiores do que há dez anos atrás. 

Não tendo nada mais para dizer, queria só marcar o registo dos que ficaram e continuo a seguir. Um abraço para os fellow bloggers

A Coisa da Micas, da amiga de juventude 

Art or Not Art, do querido Helinho

Blog do Agreste, do interessante Manoel Carlos

Memórias do Presente, do surpreendente Raimundo Narciso

Persistência do Traço, os maravilhosos desenhos do André Rocha

Nimbypolis, do minhoto Nilson

Kraak FM, do musical Kraak

Estamos pois de parabéns. Com excepção da Micas, amiga de sempre, em relação a todos os outros, o nosso encontro teria sido improvável. Fico feliz por, entre todas as coisas que o Sítio me proporcionou, uma delas ter sido conhecer o que pensam estas interessantes pessoas e ficar com elas até hoje. 


Foto de Luís Miguel Duarte

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

Num livro antigo


Quando me saiu de dentro de um livro
que há muito não abria, um bilhete de comboio
de Lisboa para o Estoril, foi como se tivesse
voltado a embarcar nesse comboio que me iria levar
até à estação onde me esperavas, com os teus
cabelos soltos pelo vento da manhã, pensando no
tampo que ainda faltava para te ver. Porém, 
o comboio parou em cada ano
que me separava desse dia, e
acabaste por te cansar da espera
nesse cais onde o vento te soltava
os cabelos, enquanto eu ia contando
os anos à medida que me aproximava
de ti. E quando cheguei à estação
onde me esperavas, só a imagem dos teus cabelos
soltos ainda voava nesse cais vazio onde tinhas
estado, escondendo o teu rosto,
até hoje, quando um bilhete de comboio
de Lisboa para o Estoril me fez viajar
até onde já ninguém me espera.

Nuno Júdice in A matéria do poema

Foto de Luís Miguel Duarte