quarta-feira, março 21, 2012

O dia da poesia com o meu poema favorito


Aos poucos apercebi-me do modo 
desolado incerto quase eventual 
com que morava em minha casa 

assim ele habitou cidades 
desprovidas 
ou os portos levantinos a que 
se ligava apenas por saber 
que nada ali o esperava 

assim se reteve nos campos 
dos ciganos sem nunca conseguir 
ser um deles: 
nas suas rixas insanas 
nas danças de navalhas 
na arte de domar a dor 
chegou a ser o melhor 
mas era ainda a criança perdida 
que protesta inocência 
dentro do escuro 

não será por muito tempo 
assim eu pensava 
e pelas falésias já a solidão 
dele vinha 
não será por muito tempo 
assim eu pensava 
mas ele sorria e uma a uma 
as evidências negava 
por isso vos digo 
não deixeis o vosso grande amor 
refém dos mal-entendidos 
do mundo 

José Tolentino Mendonça in Anos 90 e Agora, Uma antologia da Nova Poesia Portuguesa 

Foto de Luís Miguel Duarte

segunda-feira, março 19, 2012

Expressões idiomáticas: do tempo da Maria Cachucha

Significado: Muito antigo.  

Origem: A cachucha era uma dança espanhola a três tempos, em que o dançarino, ao som das castanholas, começava a dança num movimento moderado, que ia acelerando, até terminar num vivo volteio. Esta dança teve uma certa voga em França, quando uma célebre dançarina, Fanny Elssler, a dançou na Ópera de Paris. Em Portugal, a popular cantiga Maria Cachucha (ao som da qual, no séc. XIX, era usual as pessoas do povo dançarem) era uma adaptação da cachucha espanhola, com uma letra bastante gracejadora, zombeteira.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Zeca Afonso - Canção de Embalar

 

Dorme meu menino a estrela d'alva 
Já a procurei e não a vi 
Se ela não vier de madrugada 
Outra que eu souber será pra ti 
ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô  
Outra que eu souber na noite escura 
Sobre o teu sorriso de encantar 
Ouvirás cantando nas alturas 
Trovas e cantigas de embalar 
Trovas e cantigas muito belas 
Afina a garganta meu cantor 
Quando a luz se apaga nas janelas 
Perde a estrela d'alva o seu fulgor 
Perde a estrela d'alva pequenina 
Se outra não vier para a render 
Dorme ainda à noite é uma menina 
Deixa-a vir também adormecer

Zeca, reportagem no JN