quinta-feira, maio 14, 2009

Quero que sejas feliz



Quando os instantes de manhã se acumulam
nas paredes da casa, eu rasgo as páginas onde te escrevo,
porque sei que tudo será desnecessário, tudo será
frágil. Quando imagino o sol que não sei poderei ver,
esqueço as paredes e,

com tanta força,

quero que sejas feliz
.

José Luís Peixoto in A casa, a escuridão


Foto de João Coutinho

terça-feira, abril 28, 2009

Despertença



Aninhei-me quieta no teu colo à espera do momento em que descobrisses. Agora sabes bem que nunca estive lá. Nunca estive em lugar nenhum a não ser neste caminho luminoso que só encontro no silêncio. Uma flecha atirada sem rumo, sem arco, sem mão. Nunca fui de nada. Esta despertença deu-me o dom de partir a toda a hora, de ir embora antes de verem mais do que este ‘nenhum cabelo fora do lugar’. O grande drama é viver sem epiderme. Sem camada superficial que proteja do vento gelado. Tudo dói tanto. Tudo dói.

Há algo que se perdeu. Insinua-se ás vezes num pensamento, mas escapa sempre sem se desvendar. O que se perdeu? O que se terá perdido que me deixa tão tranquila?

Dezembro de 2008


Foto de João Coutinho

sexta-feira, abril 17, 2009

O que eu sei sobre ele II



Disseram-me há dias que sou igual a ele: a forma do rosto, os dentes, as mãos. Sou mais morena, apenas. No resto igual.


Foto de João Coutinho