Aninhei-me quieta no teu colo à espera do momento em que descobrisses. Agora sabes bem que nunca estive lá. Nunca estive em lugar nenhum a não ser neste caminho luminoso que só encontro no silêncio. Uma flecha atirada sem rumo, sem arco, sem mão. Nunca fui de nada. Esta despertença deu-me o dom de partir a toda a hora, de ir embora antes de verem mais do que este ‘nenhum cabelo fora do lugar’. O grande drama é viver sem epiderme. Sem camada superficial que proteja do vento gelado. Tudo dói tanto. Tudo dói.
Há algo que se perdeu. Insinua-se ás vezes num pensamento, mas escapa sempre sem se desvendar. O que se perdeu? O que se terá perdido que me deixa tão tranquila?
Dezembro de 2008Foto de
João Coutinho
Disseram-me há dias que sou igual a ele: a forma do rosto, os dentes, as mãos. Sou mais morena, apenas. No resto igual. Foto de
João Coutinho
Contam-me que usei chupeta até muito tarde. Muito tarde quererá dizer três anos. Acontecia que era muito agarrada a esse objecto e disso lembro-me bem. Ás vezes não tinha chupeta para dormir. Nessas alturas fazia uma grande birra e a minha mãe levava-me para a janela e contava-me uma história.
A história da Barburinha. Era uma mulher de longa capa que surgia do escuro e descia a rua que se via de minha casa. Essa mulher levava os meninos que choravam muito pela chupeta.
Nesse tempo morava cá uma senhora que usava umas capas com gola de pele, o cabelo loiro sempre muito bem penteado, sapatos de saltos altíssimos. Muito elegante. Ninguém me disse nada, mas nunca tive dúvidas que era ela a Barburinha.Foto de
João Coutinho