quarta-feira, novembro 05, 2008

Cruzamentos subliminares



Estes ‘cruzamentos subliminares’ projectam nas telas o impacto que as palavras de José Luís Peixoto, mais precisamente as da obra ‘ a casa, a escuridão’ , tiveram na pintura de Maria João Patronilho.

Este é um momento fulcral do trajecto da pintora: o lugar onde tudo se clarifica nas palavras dos outros, o instante onde tudo o que se transporta connosco muda algo na forma de exprimir. O cruzamento.

Afinal, de que somos feitos? Arriscamo-nos a responder que de todas as emoções que se gravaram subliminarmente nas nossas regiões mais subterrâneas e que foram moldando o nosso olhar.

Hoje, é este o olhar da Maria João.

E nós, como vemos este olhar? Talvez a Francisca, sua filha, tenha a resposta mais simples e precisa:

Quando estás aqui, vejo a tua arte, o teu sentido de ser, o teu vermelho e preto numa tela branca. Vejo o sol, o fogo, a chama.

sábado, novembro 01, 2008

Receita



Quando tiveres um segredo, sobe ao alto de uma montanha, procura uma árvore, faz um buraco no tronco, sopra o segredo para o buraco e tapa-o bem com lama.

Receita de Kar-Wai em In the mood for love


Foto de João Coutinho

sexta-feira, outubro 24, 2008

O melhor verso



Não há melhor verso do que calçar os sapatos, ir comprar o pão ou ver o mar crescer.

José Tolentino Mendonça nas Quintas de Leitura, no Teatro do Campo Alegre.


Foto de João Coutinho

segunda-feira, outubro 13, 2008

Então porque não voas?



A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"


Sérgio Godinho - A noite passada


Foto de João Coutinho