terça-feira, outubro 17, 2006

Não deixeis um grande amor



Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa

assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava

assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor
chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro

não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha

não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidências negava

por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendidos
do mundo

José Tolentino Mendonça in Longe Não Sabia


Nunca serei cativa do desinteresse. Mil vezes chorarei. Sim. Seguirei o grande amor até ao fim do mundo.


Foto de João Coutinho

quarta-feira, outubro 11, 2006

Todos os dias

Sobre a cama as metáforas
Parecem-me mais belas e
mais sublimes

uma carta,

o poder da língua que liberta os beijos e
as pálpebras em êxtase,
quando vem descendo em letra redonda e
a pertubar o meu sono

João Ricardo Lopes in a Pedra que chora como palavras


As metáforas mudas. Os pleonasmos tolos. As sinestesias inebriantes. A sinédoques cúmplices. As elipses mágicas.

Um balão de cristal com vinho tinto, o fim da tarde, a música baixinho, o granito molhado da rua, a mansarda no centro histórico. Nós.



Foto de João Coutinho