quarta-feira, janeiro 18, 2006

Secretamente




Corres em velocidade máxima sobre o globo
E sobes no balanço o céu a formar mortais
Deixas pegadas pelas nuvens
E caminhas pelo dia até ao entardecer
Apagando fogos-fátuos com suspiros

Ninguém te adivinha
Mesmo quando o teu sorriso desliza
Numa gota de água


Foto de João Coutinho

quarta-feira, janeiro 11, 2006

A Barburinha


Contam-me que usei chupeta até muito tarde. Muito tarde quererá dizer três anos. Acontecia que era muito agarrada a esse objecto e disso lembro-me bem. Ás vezes não tinha chupeta para dormir. Nessas alturas fazia uma grande birra e a minha mãe levava-me para a janela e contava-me uma história.

A história da Barburinha. Era uma mulher de longa capa que surgia do escuro e descia a rua que se via de minha casa. Essa mulher levava os meninos que choravam muito pela chupeta.

Nesse tempo morava cá uma senhora que usava umas capas com gola de pele, o cabelo loiro sempre muito bem penteado, sapatos de saltos altíssimos. Muito elegante. Ninguém me disse nada, mas nunca tive dúvidas que era ela a Barburinha.



Foto de João Coutinho

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Porque é que eu escrevo?



"Ninguém pode dar-lhe conselhos ou ajudá-lo, ninguém. Há um único meio. Entre dentro de si. Procure o motivo que o faz escrever; examine se ele tem raizes até ao lugar mais fundo do seu coração, confesse a si mesmo se viria a morrer no caso de escrever lhe ser vedado. Isto antes de mais nada: pergunte-se na hora mais calada da sua noite: tenho de escrever? Escave em si mesmo em busca de uma resposta profunda. E se esta soar afirmativamente, se o senhor tiver de enfrentar esta questão séria com um forte e simples: sim, tenho, então construa a sua vida em função dessa necessidade; a sua vida terá de ser um sinal e um testemunho desse impulso até nas horas mais indiferentes e insignificantes."

Rilke, Rainer Maria, Cartas a um jovem poeta, Porto, Edições Asa, 2002 (p.24)


Este livro marca o conhecimento com duas pessoas essenciais para mim: a que mo recomendou e a outra a quem li uma vez esta passagem.


Foto de João Coutinho

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Votos




Quando era pequena não gostava de peixe, de sopa, de arroz de feijão, arroz de polvo, arroz de tomate... Com o tempo aprendi a gostar.

Quando fazia votos, não entendia porque é que a saúde vinha em primeiro lugar - embora achasse sensato que assim fosse.

Pois bem, venho hoje com toda a minha força fazer os meus votos para 2006.

Peço que ninguém dos que me são queridos seja inserido novamente nas estatísticas da incidência do cancro de estomâgo nos países do sul. Peço também que eu própria não volte a engrossar a lista de vítimas de atropelamento.

Peço que o espaço de amor incondicional que são os meus dias me proteja sempre de tudo o que me ultrapassa.

Subitamente aprendi na pele o que remotamente me parecia sensato: nos votos de ano novo o que se pede com mais força é saúde e de seguida amor, porque o dinheiro de nada vale quando nos confrontamos com a nossa imensa fragilidade.

Quero também agradecer o amor anónimo e inconsciente que muitas vezes me deram este ano, sem saberem sequer o que se passava do lado de cá.

Bom 2006 para todos com esta ordem de prioridades. Infinitamente obrigada.



Foto de João Coutinho