domingo, dezembro 18, 2005

Uma carta



Queria que soubesses que morei em tua casa. Andei contigo na escola primária e saí muitas vezes com os teus sapatos. Sei bem dos passos inseguros. Sei do espanto e do mundo silencioso no canto da sala. Lembro-me do fascínio pelas casas grandes e pelos segredos escondidos dentro dos armários.

Colei muitas vezes o nariz ao vidro da tua janela e pensei que também gostaria de brincar na rua. Mas tudo era demasiado longe por detrás daquela porta.

Se hoje existe um lugar onde nenhuma linguagem se fala e se nesse lugar nos encontramos inevitavelmente é porque percorremos longas distâncias lado a lado. Não diria mão na mão, porque a mão era só uma.



Foto de João Coutinho

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Solitas, solitatis


A Saudade é um sentimento universal; mas, só na alma lusitana, atinge as alturas supremas da Poesia -, contendo uma concepção da vida e da existência.

Pascoaes, T. (1986). Da saudade. Em A. Botelho & A.B. Teixeira (Orgs.). Filosofia da Saudade (p.124-144). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. (Original publicado em 1952).


Habitados a tal ponto pela saudade, os portugueses renunciaram a defini-la. Da saudade fizeram uma espécie de enigma, essência do seu sentimento da existência, a ponto de a transformarem num ‘mito’. É essa mitificação de um sentimento universal que dá à estranha melancolia sem tragédia que é o seu verdadeiro conteúdo cultural, e faz dela o brasão da sensibilidade portuguesa.

Lourenço, E. (1999). Mitologia da Saudade: seguido de Portugal como destino. São Paulo: Companhia das Letras.


Foto de João Coutinho

sexta-feira, dezembro 02, 2005

As palavras antes das palavras


Saudade - s.f. desiderium, dolor; ter saudades, desiderio teneri, desiderio flagrare, desiderio confici; ter saudades de alguém, desiderare aliquem, ex desiderio alicius laborare.

Dicionário Português-Latim/Latim-Português, Porto, Porto Editora, 2005


Foto de João Coutinho

quarta-feira, novembro 23, 2005

Negro


Retirei do cenário a cor
Vagueei pelas cidades cinzentas

Olhei as minhas mãos
Vi-as negras de pó

Ouvi ao longe um ruído mudo
Tão longe que quase não era

É que me disseram que a cor não existe
Que tudo é plano sem forma nem tons

Que afinal vivemos numa ilusão tão grande
Que nunca chegamos a saber quem somos.



Foto de João Coutinho