domingo, novembro 06, 2005

Histórias da casa antiga ou coisas de formigas


Quanto cresceste? A que distância estás daquela menina?

Não te lembras bem e muitas vezes há um momento em que vais para lá. Viajas. Vês-te outra vez, deitada de barriga no chão encerado da sala, a olhar atentamente os carreiros de formigas.

A sonhar sobre o mundo paralelo que idealizaste. As formigas e as suas vidas. Onde vão em carreiros tão alinhados? Como conseguem carregar uma carcaça de mosca gigantesca? Porque se cumprimentam quando se encontram de frente?

E se puser aqui o lápis e interromper o trajecto?

Lembras-te? Eram assim algumas brincadeiras dos miúdos sozinhos.



Foto de João Coutinho

sexta-feira, outubro 28, 2005

Histórias de livros III


Também me falaram de um homem que faz corredores de livros em casa. Já não usa estantes. Os que gosta mais estão em corredores formados à volta da sua cama.

Quem me contou esta história foi um amigo que sabe centenas de poemas par coeur. Ele próprio vive rodeado de livros. Aqui.




Obrigada, Maat:


as estantes são para estar.
não para ler.
há um homem que aboliu as estantes de sua casa
e concordo com ele.
não tenho estantes em minha casa.

os livros
têm pedras e veias por dentro
correm pelos corredores indo desaguar a diversas salas.

por vezes dão filhos
e brincam com as folhas das árvores.


há os que vão ter comigo
ao meu quarto
crescente em círculo
em dias de tristeza e frio.

outros dão pelo nome de vento e água
arrombando as portas das janelas fechadas.


os livros são como rios.




domingo é um dia em que eles todos juntos
correm para o Nada.



Foto de João Coutinho

domingo, outubro 23, 2005

Histórias de livros II


Um dia um homem disse-nos - ao passar ao lado da nossa mesa no restaurante - que achava as pessoas monótonas e previsíveis.

Já não perdia tempo a conversar. Cada pessoa encaixava-se perfeitamente numa personagem de um livro qualquer que já lera.



Foto de João Coutinho

quarta-feira, outubro 19, 2005

Histórias de livros I


Há uns anos morreu um tio meu que nunca cheguei a conhecer. Não sei quase nada sobre ele. De tudo o que me disseram registei apenas uma coisa: adorava ler.

Na altura em que morreu morava numa pensão. Tinha enchido de tal forma a casa de livros que não sobrara lugar para ele.



Foto de João Coutinho