quarta-feira, outubro 05, 2005

Do tempo e das viagens


Sento-me do lado avesso do relógio
Quero olhar com atenção despida de horas
É importante passear pelos dias fora
Pedir a Lorca o ladrão do tempo
E subitamente ver as máquinas
a andar para trás
Queria ir ao passado ao futuro ir ao longe
Sem este cordel que me prende o pulso neste dia




As formas circulares dos mostradores dos relógios, por exemplo, geram a ilusão de que as horas regressam sempre e isso nunca acontece. Se calhar, devíamos imaginá-los em forma de espiral.

Laurie Anderson, Anéis de Fumo, Assírio e Alvim, 1997 ( p.37 )


Foto de João Coutinho

quinta-feira, setembro 29, 2005

Palavras doutros - Dúvida



Que guardarão de mim as casas que
deixei? O pó sobre o meu nome?




Pedreira, Maria do Rosário, Nenhum Nome Depois, Lx, Gótica, 2004 (p.39)


Foto de João Coutinho

quarta-feira, setembro 21, 2005

Posso falar-te?


Os copos em cima da noite de verão
As gargalhadas as conversas sem destino
O deserto quente do resto da vida
Uns olhos com lágrimas
O abandono
O cão vadio que dorme no jardim

E nenhum de nós sabia
O que fazer quando uma pessoa abandonada
Talvez não tivesse onde dormir

Uma pessoa abandonada
Uma pessoa abandonada
Uma pessoa abandonada

O deserto árido do resto da vida
O grito agudo de dizer eu ainda vejo

Que faço agora?

O mundo é livre para que te fale?



Foto de João Coutinho

quarta-feira, setembro 07, 2005

Palavras doutros e um beijo


agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor

agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente

lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor


Mãe, Valter Hugo, Anos 90 e Agora, Quasi ( p.269 )


Foto de João Coutinho