quarta-feira, setembro 07, 2005

Palavras doutros e um beijo


agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor

agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente

lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor


Mãe, Valter Hugo, Anos 90 e Agora, Quasi ( p.269 )


Foto de João Coutinho

sexta-feira, setembro 02, 2005

Campus Stellae


As recordações guardam-se em gavetas. Algumas não têm fechadura e abrem-se sempre que se precisa. Outras têm.

Estas últimas abrem-se quando menos se espera, as chaves são variadas e podem surpreender-nos em qualquer lugar. Podem ser um cheiro, uma música, uma frase solta, uma determinada luminosidade no dia…

Tinham passado dois anos e nunca pensei que a força desta memória me faria crescer um nó na garganta. Voltei ao campo da estrela e tive vontade de chorar outra vez.



A Lenda


Foto de João Coutinho

terça-feira, agosto 23, 2005

Cem nomes


Eu sou a que não sabe os nomes das coisas

Vou a lugares onde nada se chama
Inclino-me na terra
E suavemente escuto os corações a bater

Um dia perguntei a um velho na rua
Onde era a minha casa
Disse-me um nome que não sei pronunciar

A porta está gravada a sangue num coração

É lá que eu moro.



Foto de João Coutinho

sexta-feira, agosto 19, 2005

Finisterrae


Quando era pequena pensava que a terra era quadrada e que, uma vez chegados ao final, nos poderíamos debruçar e ver as estrelas.

Pensava na altura que isso seria algures na zona de uma estrada que eu vi uma vez e que terminava abruptamente no início de um monte.

Mais tarde soube que havia um lugar chamado Finisterrae e que ao longo dos séculos foi um lugar sagrado precisamente por se acreditar que aí era o fim do mundo.

A diferença deste para o “meu” fim do mundo é que aqui a terra termina no mar. E neste lugar o mar é mágico. Como se todas as recordações continuassem presentes. As minhas e as de todos que lá foram à procura de estrelas.



Foto de João Coutinho