quinta-feira, junho 30, 2005

"Donne-moi la photo"



Quand la Land Rover disparut en soulevant un nuage de poussière, Idriss n'était tout à fait le même homme. Il n'y avait a Tabelbala qu'une seule photographie. D'abord parce que les oasiens sont trop pauvres pour se soucier de photographie. Ensuite parce que l'image est redoutée par ces berbères musulmans. Ils lui prêtent un pouvoir maléfique; ils pensent qu'elle matérialise en quelque sorte le mauvais oeil.

Tournier, Michel, La Goutte D'Or, Paris, Gallimard, 1986 (pp 14/15)


Na altura não conhecia estas crenças, mas o efeito de desespero era o mesmo: não suportava que me fotografassem. Pouco tempo depois aprendi a juntar as letras e comecei a escrever poemas.

Se, em algumas culturas, as pessoas acreditam que a reprodução da imagem lhes rouba a alma, eu acreditei sempre que a palavra escrita preserva a minha.


Há um ano atrás comecei a escrever aqui.

segunda-feira, junho 20, 2005

Um


Àquela hora não sabia ainda se virias
se os atrasos do tempo sempre a horas
iriam enferrujar as máquinas dos relógios

Olhei muitas vezes a torre da igreja
outras nem olhei e o sino tocou
na trémula névoa do calor da estrada

As mãos unidas a dada altura
pareciam uma

Uma a pele e o sangue um
como também os pensamentos
que escapavam na direcção
que os teus olhos tomavam
e encontravam os meus
ali acolá pousados
nas mesmas coisas que procuravas

Esperavam-te para pousar a seguir
com os teus noutro lugar



Foto de João Coutinho