segunda-feira, junho 13, 2005

O voo


Levar-te à boca
Beber a água
mais funda do teu ser

Se a luz é tanta,
Como se pode morrer?


Eugénio de Andrade

.....


I

em todos os edifícios

da urbe/

ouvirei o teu centro/

como a rosa

para

abrigo/


II


há mortes que não sabem/que a morte

é um verso/ que deixa

destroços/



como um grande naufrágio



III


um pássaro

há pouco

recebia os teus versos/ em

telepáticas línguas/



chove muito

muito/



a chuva arrasta o teu nome na boca


Maat 7

.....


Passeaste em caminhos de água
Lavando a sede ao calor da alma

A sílaba que procuraste toda a manhã
Soou agora no silvo de águia
O corpo e a terra voam fundidos

Esvoaça o brilho assim de madrugada




Foto de João Coutinho

quarta-feira, junho 08, 2005

Além da esperança


(...) Pensei que é bom olhar para o mundo com ingenuidade e sem construções.

Podemos assim perceber quanto o que nos move é tão pequeno e sem sentido. Podemos ter medo. Podemos ter esperança e teremos que a construir cada vez melhor, depois de se quebrar.

A seguir ao espectáculo, fomos pela rua fora até ao carro. Fui olhando para as montras coloridas cheias de apelos aos sentidos. Olhava também para o chão e para as casas da baixa com ar sujo e triste. Como se a cidade fosse um cenário degradado e ilusório e o mundo estivesse unicamente dentro de nós. O teu braço a aquecer-me o ombro era afinal a esperança, a única forma de não ter medo.



Foto de João Coutinho