quarta-feira, junho 08, 2005

Além da esperança


(...) Pensei que é bom olhar para o mundo com ingenuidade e sem construções.

Podemos assim perceber quanto o que nos move é tão pequeno e sem sentido. Podemos ter medo. Podemos ter esperança e teremos que a construir cada vez melhor, depois de se quebrar.

A seguir ao espectáculo, fomos pela rua fora até ao carro. Fui olhando para as montras coloridas cheias de apelos aos sentidos. Olhava também para o chão e para as casas da baixa com ar sujo e triste. Como se a cidade fosse um cenário degradado e ilusório e o mundo estivesse unicamente dentro de nós. O teu braço a aquecer-me o ombro era afinal a esperança, a única forma de não ter medo.



Foto de João Coutinho

quinta-feira, junho 02, 2005

Da esperança e outras coisas


Lembrei-me de uma conversa onde afirmei que tinha ainda muito para aprender e de alguém me ter respondido “ não, tens tudo para desaprender “.

E fiquei a pensar nessa frase. Pensei que tudo quanto julgava saber não faz sentido. De quanto o sentido aparece claramente nas coisas mais simples, quando simplesmente as olhamos sem certezas.

E quando me falaste dela eu entendi o que era DESAPRENDER.

Há uns dias fui vê-la contigo.

Para além das coisas que já me tinham feito sorrir antes, ouvi-a falar do medo.

Dizia que só se sente medo no início, tal e qual como só se gagueja no princípio das palavras, nunca no final.

Falou da esperança, como se fosse uma prateleira de uma casa junto a uma linha de comboio: de cada vez que ele passa caiem as coisas que estão em cima e nós tratamos logo de as substituir por outras, cada vez de pior qualidade, pois sabemos que se vão partir novamente. A esperança...



(...)


Foto de João Coutinho: Parabéns, João, pela exposição na Livraria Navio dos Espelhos e pelo artigo na revista Foto Digital.

quinta-feira, maio 26, 2005

Viagem


Passei muito tempo a fazer malas. A virar silenciosamente as costas e ir embora. Cidades novas, vertigens, momentos e nada. Aprendi a chegar para partir depois. Sabia, ao entrar nas casas, que ali não era o meu lugar.

Sempre o apelo do deserto. Dos dias quentes, das alucinações. Das noites geladas e do lençol ténue de estrelas. Entregar o corpo à noite e ao silêncio.

Sabemos demasiado bem o que é o sofrimento para não reconhecermos o instante eterno quando o vivemos. Talvez não tenhamos casa. Desta vez nem trouxe nada. Não quero desfazer e fazer depois para ir embora.




Foto de João Coutinho

sexta-feira, maio 20, 2005

O sol


Estava assim cabeça inclinada
Olhos perdidos pela sala
E carícias de uma música leve como o ar
Pensava numa conversa sorrindo
Pensava que alguém tinha uma mão aberta
Sem pedras dentro só com ternura

Pensava nas horas a passarem
No ponteiro dos segundos a correr
E se vale ou não a pena pensar demais
Se os acasos terão algo para nos dizer
Ou se sendo acasos o são apenas

Pensava que fiquei leve de repente
Porque no meio da noite vi qualquer coisa
Acho que vi o sol no mar mas não seria
.



Foto de João Coutinho

( sim, a música de que falo é precisamente esta que está a tocar e que TU me sugeriste )