domingo, março 20, 2005

Os nomes


Está o meu nome dentro do teu nome

Cheiram a sal a algas e a iodo
Arrepiam em salpicos de espuma branca

Ambos repetem ondas em melodia
Repetem o mar infinitamente

Os nomes ás vezes são maiores que oceanos



Foto de João Coutinho

quinta-feira, março 17, 2005

Sobre o amor e o medo


Desta vez pensei sobre a fragilidade
Ouvi ao longe uma explosão
E vi lágrimas e sangue e tanta dor
E várias mãos douradas a segurarem-me
A prenderem-me a abraçarem-me

E o túnel vertiginoso a deslizar nos meus olhos
E medo tanto medo tanto tanto tanto
E a mão dourada a tentar alcançar-me
E a mão dourada pousada na minha testa

E pensei que as pessoas de cristal se estilhaçam
Que as cidades não suportam pessoas de cristal

E nesse momento soube que há mãos que nos seguram
Que o amor não tem limites nem espaço nem tempo



De Maat :

vou escrevendo em cima dos andaimes da luz
a tua voz entrou pelas janelas das grandes cidades
aí o tempo ofuscou a memória das casas
e a cor natural dos campos verdes

já não há sinos nem pássaros nas árvores
para anunciar o meio-dia do vento
nem o silêncio tranquilo da tarde para adormecer
nos espelhos do adro

só as pequenas sílabas das abelhas escondidas nas colmeias
vêm em viagem pelo transitório sangue das calçadas
no ventre das pedras ouço o meu nome o teu nome

o estranho fogo de que o amor é feito




Foto de João Coutinho

terça-feira, março 15, 2005

As estradas


A seguir contavas-me uma história
Escutava atenta mergulhada nos teus olhos
Não eram as palavras que ouvia
Via os quadros que pintavas
Em cores que só eu conheço e tu me ensinas

A seguir contavas-me uma história
Falavas-me das viagens que fazes pelo mundo
Disseste-me também que não vieste
Mas eu sabia a dada altura que já estavas
Mesmo sem teres chegado ainda

É que há estradas em cima das estradas
Umas são de alcatrão
Outras não são

Serão de terra ou de lua
Têm caminhos concretos e destinos certeiros

São essas que te trazem antes de chegares



Foto de João Coutinho

sexta-feira, março 11, 2005

Domingo


Não te conheço ainda não sei quem és
Disseram-me de ti tantas coisas que não ouço
Disseram-me de ti que tinhas visto o mundo

Não conhecia ninguém que tivesse visto o mundo
Sempre estive encerrada na minha aldeia
Nunca soube bem o que encontrar do lado de lá do monte

Uma vez vieste à missa do meio-dia
E encontrei-te ao sol da tarde no adro da igreja
Eu era a menina de tranças e tu o rapaz de blusão de couro

Mas os meus olhos eram da cor dos teus
E o mundo que eu não vi estava no teu olhar
E o mundo que eu vi estava em mim e tu soubeste



Foto de João Coutinho