terça-feira, março 15, 2005

As estradas


A seguir contavas-me uma história
Escutava atenta mergulhada nos teus olhos
Não eram as palavras que ouvia
Via os quadros que pintavas
Em cores que só eu conheço e tu me ensinas

A seguir contavas-me uma história
Falavas-me das viagens que fazes pelo mundo
Disseste-me também que não vieste
Mas eu sabia a dada altura que já estavas
Mesmo sem teres chegado ainda

É que há estradas em cima das estradas
Umas são de alcatrão
Outras não são

Serão de terra ou de lua
Têm caminhos concretos e destinos certeiros

São essas que te trazem antes de chegares



Foto de João Coutinho

sexta-feira, março 11, 2005

Domingo


Não te conheço ainda não sei quem és
Disseram-me de ti tantas coisas que não ouço
Disseram-me de ti que tinhas visto o mundo

Não conhecia ninguém que tivesse visto o mundo
Sempre estive encerrada na minha aldeia
Nunca soube bem o que encontrar do lado de lá do monte

Uma vez vieste à missa do meio-dia
E encontrei-te ao sol da tarde no adro da igreja
Eu era a menina de tranças e tu o rapaz de blusão de couro

Mas os meus olhos eram da cor dos teus
E o mundo que eu não vi estava no teu olhar
E o mundo que eu vi estava em mim e tu soubeste



Foto de João Coutinho

segunda-feira, março 07, 2005

Correntes de prata


Talvez te pareça um poema de amor
O que vou escrever hoje
Vou escrever sobre as sintonias
Que se movimentam no ar que respiro
Que flutuam à minha volta sempre que acordo

É que hoje sonhei com correntes de prata
Que se alongam pela noite e me deixam flutuar
E vezes sem conta repeti um nome

E depois acordei e fiquei desperta
Serenamente
Não pensava em nada
Deixei apenas que me transportasses
Olhos abertos no escuro

Inclinada em mim talvez
Ou simplesmente em silêncio




Foto de João Coutinho



A música : Lent et Doloreux de Erik Satie - uma sugestão muito adequada de JAP, dos Dias Atlânticos.

E agora, quer contar a história do lugar que deu origem a estes Dias?

quarta-feira, março 02, 2005

Vidro


Estava estilhaçada em fragmentos
Estava nas paredes sujas dos prédios na cidade
Nas valetas com papeis desfeitos e latas de coca-cola
Nos carros e no fumo negro dos canos de escape
Nas televisões em volume máximo
Nas pessoas a correr aos tropeções
Nos cães com sarna e nas crianças desabrigadas
Estava estilhaçada na dor e no ruído

Um dia uma mão dourada pegou no vidro translúcido
Que brilhava na calçada e guardou-o no coração
Então encontrei-me no silêncio e fiquei só uma



De Maat7:

apenas uma estrela
fazia um pequeno desenho no chão
um brilho de primeiro dia
de fuga e desafio

jamais a encontrariam na abóbada celeste
entre os nomes e as pedras limpas
da alegria

secreta quase invisível
era um nome à luz do trigo
para ser dia
ou cítara do vento para adormecer os deuses
e habitar o silêncio despojado e nu
no brilho dos navios

só o meu destino passaria neste bosque
exacto como um rio




Foto de João Coutinho