segunda-feira, março 07, 2005

Correntes de prata


Talvez te pareça um poema de amor
O que vou escrever hoje
Vou escrever sobre as sintonias
Que se movimentam no ar que respiro
Que flutuam à minha volta sempre que acordo

É que hoje sonhei com correntes de prata
Que se alongam pela noite e me deixam flutuar
E vezes sem conta repeti um nome

E depois acordei e fiquei desperta
Serenamente
Não pensava em nada
Deixei apenas que me transportasses
Olhos abertos no escuro

Inclinada em mim talvez
Ou simplesmente em silêncio




Foto de João Coutinho



A música : Lent et Doloreux de Erik Satie - uma sugestão muito adequada de JAP, dos Dias Atlânticos.

E agora, quer contar a história do lugar que deu origem a estes Dias?

quarta-feira, março 02, 2005

Vidro


Estava estilhaçada em fragmentos
Estava nas paredes sujas dos prédios na cidade
Nas valetas com papeis desfeitos e latas de coca-cola
Nos carros e no fumo negro dos canos de escape
Nas televisões em volume máximo
Nas pessoas a correr aos tropeções
Nos cães com sarna e nas crianças desabrigadas
Estava estilhaçada na dor e no ruído

Um dia uma mão dourada pegou no vidro translúcido
Que brilhava na calçada e guardou-o no coração
Então encontrei-me no silêncio e fiquei só uma



De Maat7:

apenas uma estrela
fazia um pequeno desenho no chão
um brilho de primeiro dia
de fuga e desafio

jamais a encontrariam na abóbada celeste
entre os nomes e as pedras limpas
da alegria

secreta quase invisível
era um nome à luz do trigo
para ser dia
ou cítara do vento para adormecer os deuses
e habitar o silêncio despojado e nu
no brilho dos navios

só o meu destino passaria neste bosque
exacto como um rio




Foto de João Coutinho

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

O Brilho


O brilho está nos olhos mas donde vem?
Talvez do orvalho nas folhas das árvores
Ou das asas húmidas dos pássaros pela manhã

A névoa está nos olhos mas donde vem?
Talvez das lágrimas presas em jaulas de força
Ou da bruma dos bosques por onde me perco

E em cada amanhecer o nevoeiro aclara-se
E passo a passo caminho descalça pelo trilho

Nas pedras nas folhas esmagadas no frio da madrugada

Caminho em silêncio para a clareira
E vejo ao fundo a luz na floresta
E vejo ao fundo a luz em mim.




De Maat :

inclino-me
à luz
que trago das aves

desde
o
céu que vêm comigo

a manhã inicia-me em seu voo
um antigo voo
nele mil vezes morri
mil vezes sem uma palavra na boca
sem uma estrela para iluminar o rosto
ou uma pedra para inclinar o ouvido
e sentir o sangue quente
da amada terra


apenas
o vazio quebrado em seus múltiplos espelhos
em sons quase imperceptíveis
quase alados
quase névoa

só perfume e feridas


andei toda a noite em viagem toda a noite

não encontrei senão o vestido branco
da minha sombra



Foto de João Coutinho

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Cais


Sei ainda que sabor tinham os dias quando te conhecia
Guardo sempre o melhor de cada estação
No cais de embarque os comboios chegam e partem
E vou dizendo adeus a alguns rostos nas janelas
Guardo em mim sempre tudo o que me ensinam
Guardo mais que tudo o carinho com que os olhei um dia
Esqueci o que veio depois como se nunca tivesse vindo
E saí na estação que entendi ser a minha
E agora estou em casa e olho tranquila os dias
Que passam como comboios de alta velocidade
E levam e trazem sonhos e pessoas
E a vida sorri sempre sempre sempre e apesar.




Foto de João Coutinho