segunda-feira, fevereiro 28, 2005

O Brilho


O brilho está nos olhos mas donde vem?
Talvez do orvalho nas folhas das árvores
Ou das asas húmidas dos pássaros pela manhã

A névoa está nos olhos mas donde vem?
Talvez das lágrimas presas em jaulas de força
Ou da bruma dos bosques por onde me perco

E em cada amanhecer o nevoeiro aclara-se
E passo a passo caminho descalça pelo trilho

Nas pedras nas folhas esmagadas no frio da madrugada

Caminho em silêncio para a clareira
E vejo ao fundo a luz na floresta
E vejo ao fundo a luz em mim.




De Maat :

inclino-me
à luz
que trago das aves

desde
o
céu que vêm comigo

a manhã inicia-me em seu voo
um antigo voo
nele mil vezes morri
mil vezes sem uma palavra na boca
sem uma estrela para iluminar o rosto
ou uma pedra para inclinar o ouvido
e sentir o sangue quente
da amada terra


apenas
o vazio quebrado em seus múltiplos espelhos
em sons quase imperceptíveis
quase alados
quase névoa

só perfume e feridas


andei toda a noite em viagem toda a noite

não encontrei senão o vestido branco
da minha sombra



Foto de João Coutinho

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Cais


Sei ainda que sabor tinham os dias quando te conhecia
Guardo sempre o melhor de cada estação
No cais de embarque os comboios chegam e partem
E vou dizendo adeus a alguns rostos nas janelas
Guardo em mim sempre tudo o que me ensinam
Guardo mais que tudo o carinho com que os olhei um dia
Esqueci o que veio depois como se nunca tivesse vindo
E saí na estação que entendi ser a minha
E agora estou em casa e olho tranquila os dias
Que passam como comboios de alta velocidade
E levam e trazem sonhos e pessoas
E a vida sorri sempre sempre sempre e apesar.




Foto de João Coutinho

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

A garça


Mãos geladas em arrepio
Fim de tarde negro
E dois pontos brancos

A garça branca espia a água
A lua branca espia a terra

Muro milenar em pedras gastas
Onde me debruço a olhar o rio
Lua branca na água negra
Garça branca no céu escuro

Silêncio em mim no ar suspenso
Círculos concêntricos nascem no rio

Noite serena sem tempestade
Olhei o céu e não chovia



E do outro lado, hoje À Procura de Cleopatra



Foto de João Coutinho

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

...


Onde está a minha capa de invisibilidade?
Perdi-a algures e precisava de sair por aí
Sem que ninguém me olhasse e reparasse
Que caminho alheia focando infinitos
Quero cobrir-me de invisível
Que ninguém me veja nem repare
Que não sou de cá não conheço as ruas
Quero vaguear sozinha pelo nada
Olhar paredes portas mesas e cadeiras
E ver estrelas luzes brilho e vastidão



De Maat :

atravessa pois a casa o bosque das horas
a voz suspensa num grão de luz
não desejes nem tu possas querer nada
nem fazer perguntas às mais velozes águas
o céu e o mar são o teu lençol
a estranha porta do nada que se abre
para a solidão das aves e para os pobres

abertas são as casas as mais frágeis casas
no azul inquieto da memória ou se quiseres
a capa invisível onde acordada dormes



única e igual és nesta harpa de espinhos
o coração da lua
o sol
no búzio do ouvido


crucificada
cantas

silencioso o brilho




Foto de João Coutinho