sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Viagem


Pensei muito tempo acerca da chuva
Pensei na chuva que ficou presa nas folhas
Pensei também no cheiro a terra quando cai
E em fins de tarde vermelhos e quentes
Pensei em horizontes distantes na savana
Em árvores secas recortadas no fim de dia
Pensei em mim como se lá estivesse
E senti o calor o cheiro o espaço
Pensei então que fui lá sem lá ter ido



Foto de João Coutinho

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Saudade de Sevilha


Aproximava-se a preto e a vermelho
A morena esguia com liga na meia
Batia o sapato no tablado
E vibrava o ar embriagando os olhos

Sentados nas mesas da penumbra
Copo com gelo e olhares intensos
No deslumbramento da chama
Na cor temperada a sal e flamengo

Não era sequer bonita a morena
Passava na rua e ninguém a via
Mas quando a alma sai na música
Hipnotiza o olhar de quem a olha




De Luz Intensa:

Bailas, morena de mirada infinita,
la esencia y misterio de ser bailaora.
Un sentir flamenco de alma que grita.
Danzar la música que ama y que llora.
Entre tus manos hay algas marinas
enredadas en ti, son caracolas.
Desprendes perfume de agua salina
y al moverte, tu vestido es de olas.




Foto de João Coutinho

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

As mãos


As mãos desenham círculos
Dedos magros tocam pianos
As mãos desenham rosas
Dedos magros tremem
Em cigarros semi-apagados
O lápis de carvão passeia em folhas
Passeia o piano pelos dedos

Estas não são as minhas mãos
São as mãos dos pensamentos
Não sabem já tocar piano
Nem desenhar rosas em círculo

No ciclo do tempo trouxe-as comigo
Ficou do passado o que souberam
O resto resta em mim em infinito





O fotógrafo - João Coutinho:

"Gosto de fotografia desde que me lembro. Sempre que olhava para o meu pai com a sua Nikon FM2, tinha vontade de pegar nela (pesada) para poder apenas olhar pelo óculo. A pouco e pouco fui recebendo autorização para tirar algumas e a partir dai, nunca mais parei. Com o aparecimento do digital, as possibilidades de registar o mundo que me rodeia ficou muito mais acessível ao meu olhar. No entanto, por muito que o digital nos invada, continuo apenas a sentir a fotografia na sua totalidade quando a contemplo no papel."

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Voar


Girava o carrossel na feira
Ao som de um realejo envelhecido
A menina no cavalo ria estonteada
O cavalo galopava pela noite
E recortadas no céu via já
As asas brancas a planarem

Há momentos em que os cavalos
Se desprendem suavemente dos carrosséis
E voam em direcção ao luar sem nós sabermos



A música :

"Find a way and clear my soul
Driving out to get my goal…"


In Cinema de Rodrigo Leão. Voz de Sónia Tavares



Um tulipa negra é sempre um tulipa negra: Marco António, deixaste-me sem palavras.



Foto de João Coutinho