segunda-feira, fevereiro 14, 2005

As mãos


As mãos desenham círculos
Dedos magros tocam pianos
As mãos desenham rosas
Dedos magros tremem
Em cigarros semi-apagados
O lápis de carvão passeia em folhas
Passeia o piano pelos dedos

Estas não são as minhas mãos
São as mãos dos pensamentos
Não sabem já tocar piano
Nem desenhar rosas em círculo

No ciclo do tempo trouxe-as comigo
Ficou do passado o que souberam
O resto resta em mim em infinito





O fotógrafo - João Coutinho:

"Gosto de fotografia desde que me lembro. Sempre que olhava para o meu pai com a sua Nikon FM2, tinha vontade de pegar nela (pesada) para poder apenas olhar pelo óculo. A pouco e pouco fui recebendo autorização para tirar algumas e a partir dai, nunca mais parei. Com o aparecimento do digital, as possibilidades de registar o mundo que me rodeia ficou muito mais acessível ao meu olhar. No entanto, por muito que o digital nos invada, continuo apenas a sentir a fotografia na sua totalidade quando a contemplo no papel."

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Voar


Girava o carrossel na feira
Ao som de um realejo envelhecido
A menina no cavalo ria estonteada
O cavalo galopava pela noite
E recortadas no céu via já
As asas brancas a planarem

Há momentos em que os cavalos
Se desprendem suavemente dos carrosséis
E voam em direcção ao luar sem nós sabermos



A música :

"Find a way and clear my soul
Driving out to get my goal…"


In Cinema de Rodrigo Leão. Voz de Sónia Tavares



Um tulipa negra é sempre um tulipa negra: Marco António, deixaste-me sem palavras.



Foto de João Coutinho

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

LA MAFIA se senta a la miesa*


Eelko van Mulder, não vou começar a fazer concorrência ás tuas fabulosas sugestões gastronómicas, mas a esta não resisto.

Há uns dias atrás fui jantar a um lugar especial. Com ingredientes cheios de charme. Deixou-me a sensação de estar inserida num cenário de filme e que a qualquer momento o Padrinho entraria porta dentro. Comida agradável - siciliana. Empregados solenes vestidos de negro. Decoração encenada, num edifício recuperado de alguma fábrica desactivada. Pé direito a perder de vista. Entre muitas, uma sobremesa surpreendente e sublime: gelado de limão com cava, servido numa flûte.

E este texto a apresentar o menu :


"A refeição de um mafioso equipara-se a uma liturgia.

Na história da Máfia a comida tem uma importância igual à que têm nos Evangelhos.

Daí que a história da Máfia se encontre estreitamente vinculada à história da gastronomia siciliana, uma das mais desconhecidas, mas também uma das mais suculentas de Itália.

Os “ Pezzi de noventa “, os passos dos noventa, que é como se chama em virtude do seu peso aos “ chefes da “ Honorável Sociedade “ dão os últimos retoques nos seus menus com o mesmo cuidado com que preparam os seus crimes.

Daí que a expressão “ cucinare el delitto “ , cozinhar o crime, seja uma expressão siciliana cujo significado está muito longe de ser casual."


Local : Matosinhos

( *Esclarecimento : o título deste texto é o nome do restaurante, ipsis verbis. Embora usando incorrectamente o termo " miesa " é assim mesmo que eles se entitulam. Obrigada )

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

A luz


Viajo nos teus olhos sabes
Agarro com força as penas
Do teu manto branco e voo
Deixo-me levar pela tua luz
Sei muitas vezes do que falas
Outras sei-o sem saber como o sei
Seremos talvez da mesma galáxia talvez
Mas eu procuro ainda os primeiros passos
Como uma criança perdida no infinito.


De Maat:

"nem tu sabes por quantos anos
voltarás ao arco do espaço
qualquer palavra que tu digas
estará escrita fora do tempo


segredo-te apenas o próximo bosque"



Foto de João Coutinho