sábado, fevereiro 05, 2005

Branco


Quis escrever sobre as casas
De gostar delas vazias para poder respirar
Bastava a luz da lareira
Ou sem mais imaginação
Duas velas pousadas em castiçais
Translúcidos como se flutuassem

E podiam existir casas
Perdidas no meio da neve
Para me aconchegar ainda mais no teu sono
Para aceitar que como eu também tu tens frio
Para olhar pela janela e ver
Tudo branco branco branco
Ver a tranquilidade de te saber dentro de mim

Para nunca mais me enganar
E dizer que vou embora
Para que o teu abraço seja o meu refúgio
Mesmo quando o frio e o medo me invadem
E vejo por todo lado portas abertas para fugir



Foto de M.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

À procura do piano


Um noite no Verão passado fui ouvir música de câmara. Dvorak. Estava assim na dúvida de gostar ou não. Concentrava-me ora no piano, ora no violoncelo, ora no violino. No todo. Nas partes. Sempre tive a mania da dedução e da indução.

Via as sombras dos archotes crescerem a cada movimento na parede de pedra. Sentia, ao olhar a paisagem do alto do monte, ao ver ao longe as luzes da vila, que algo se tinha quebrado. Sabe-se sempre quando algo se quebra. Sempre a mania de induzir e deduzir.

Perguntava-me : se gosto das partes tenho que gostar do todo ? E as partes de que não gosto? Tenho que aceitá-las? Depois ouvi algo assim como “ estou no mundo “. E pensei em que mundo. Talvez nunca nos tenhamos encontrado no mesmo mundo, quiçá. Mas ainda hoje penso que se me perguntarem onde é o meu, eu não saberei explicar.

Foi nesse dia que peguei num dos archotes e fui embora. Acabei por decidir que no todo preferia a música do piano. Desci o caminho de volta a casa, embora não saiba bem para que lado é. Algumas vezes levantei o archote e iluminei um rosto que me olhava. Ninguém sabia tocar piano. Era esse o som que eu seguia. A parte do todo que procurava. Parece-me que peço tão pouco. Será que peço assim tão pouco?



Foto de M.

domingo, janeiro 30, 2005

O branco e o negro


Lamento quem caminha nas ruas da existência de cabeça baixa. Quem nas pedras da calçada fixa os olhos e não ouve mais apelo que o da deslealdade. Lamento também quem se julga tão grande, que salta de telhado em telhado sem saber a quem pertencem as casas. Lamento quem caminha na vida à procura do confronto. Mostrando força com coisas tão vãs que nada valem. Tudo é brevidade. É tão fácil pintar os dias de ternura, levantar os olhos e deixá-los respirar sorrisos. Como entregar flores porta a porta. Deixar a marca da doçura esbater as manchas de angústia.


Foto de M.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Pessoas : Rita

A pessoa sobre quem quero falar hoje é diferente das pessoas de quem falei antes. Não publicou um livro, não pintou um quadro, não projectou um edifício. Não chegamos a ser amigas, porque a amizade precisa de tempo e o nosso tempo começava agora.

Criamos um laço forte. O laço de quem quer passar na vida mudando o mundo nas pequenas coisas do dia a dia. Temos algo em comum. Algo concreto que perdurará. Fizemos ambas de um espaço cinzento, um lugar alegre, colorido, confortável. Sonhamos um lugar onde os doentes se sentissem menos doentes, os pobres menos pobres. E está lá. As obras perduram, mesmo que não se saiba dos sonhos de quem as fez.

Estes dias tenho ouvido sobre ela as mais variadas expressões. Todas falam de força, de vida, de justiça, de disponibilidade. De causas. Corria o mundo por uma causa. Dedicava tempo ao voluntariado. E vivia. Intensamente.

Dói-me a dor dos que a choram. Dói-me ouvir “ a nossa fúria azul grenã morreu “.

Lembrei-me do pintor Luís Pinto Coelho. Lembrei-me da partida com as contas ajustadas. Dar e receber muito. Dar e receber tanto quanto se pode.

Lembrei-me também que nada se pode adiar. O minuto seguinte não nos pertence.

Súbita e tranquilamente a Rita foi embora há uns dias atrás. A fragilidade da sua vida é também a nossa fragilidade.



( e hoje um beijo especial para uma amiga que festeja o aniversário do seu blog e não deixar para amanhã o que não sei se poderei dizer : gosto muito de ti, Filipa )