sexta-feira, janeiro 14, 2005

Votos e rituais


Há lugares onde só chega
quem não receia
as suas sombras
quem fecha os olhos
deixa o sol brilhar na face
sente o beijo morno da luz
arruma no coração
as mágoas e as alegrias
dando-lhes o seu lugar

Somos feitos de tudo
também de cicatrizes

Que o futuro traga a sensação
de repouso ao teu coração
e possas enfim aceitar
sem escolhos o que te oferecem.



Foto de M.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Pessoas : Luís Pinto Coelho


"Rejon de Muerte"
óleo sobre tela
97x130 cm
1999

Recordações do mundo juvenil, figuras da história, sinais que marcam o tempo e a sociedade em que tem vivido, tudo isto está reflectido na obra de LPC sempre com uma visão crítica, irónica ou inclusivamente caricatural, tão de acordo com o temperamento do artista, perfeitamente integrado no mundo a que pertence sem deixar de observá-lo com um toque benevolamente irreverente ou até maliciosamente inocente. ( o resto aqui )

Nasceu em Lisboa em 1942 e morreu em Madrid no dia 4 de Novembro de 2001. Frequentou o curso de pintura e escultura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Viveu em Madrid durante quarenta anos. Trabalhou sob a orientação do pintor Luís Garcia Ochoa. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian.

Sobre ele tenho uma recordação fortíssima. Uma entrevista que deu na RTP2 pouco antes de morrer. Lembro-me particularmente da tranquilidade que me surpreendeu numa pessoa que quase sabia em que dia se iria embora. Lembro-me acima de tudo de uma frase. Hoje essa frase, ou melhor, o conceito de vida que ela encerra, faz parte de uma das minhas bandeiras. Dizia ele que tinha as contas saldadas com a vida : tinha recebido muito e tinha dado de igual forma.

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Sobreviventes


Como uma criança atravesso ruas e avenidas
Os olhos pousam e voam rasando o mundo
Em todos os lugares que quero levar comigo
Entrego-me à vida com a doçura de quem não sabe mais
E nada mais sei do que existir sentindo o que me toca
Sei que não deveria dar-me assim sem medo
Dizem-me os conselhos que não se deve seguir em frente
Como se toda a gente se cruzasse nos caminhos
Com bandeiras brancas e olhos brilhantes de ternura
Sigo assim desprotegida dos que se escondem
Atrás de mágoas e intenções guerreiras de ferir
A brancura permanece intacta nos que sobrevivem
A fragilidade dos que não se protegem enche os dias de luz



Imagem de M.

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Dunas


Flutuo antes do sono por limbos de ideias
Suspiro por desertos dourados de areias
E vento a soprar no fim dos dias
Calor a escoar-se pelo frio das estrelas

Acordo no mesmo lugar tudo mudado
Fascínio dos descampados sem palavras
Onde só o brilho do sol me faz sorrir
Onde as tempestades doutras vidas
Não levam do meu céu a luz do norte



Imagem de M.