quarta-feira, janeiro 05, 2005

Pessoas : Barragán



Barragán foi muito influenciado pela arquitetura árabe do sul da Espanha. Isso se evidencia na utilização dos jardins intimistas e na presença da água (com seu barulho) nas composições, nas elaboradas seqüências de passagem entre os diferentes espaços, na relação permanente entre o natural (vegetação, água, luz, céu, vento, visuais) e o artificial (jardins e ambiências), com o objetivo de criar um todo indivisível, um amálgama material-espiritual.
Isso vale tanto para os interiores quanto para os exteriores.


Jáuregui, Jorge Mário - Projecto Design

De todos os elementos sempre me senti água. A transparência agrada-me de variadas formas. Gosto de materiais translúcidos. Palavras transparentes. Sentimentos claros. Água. Do mar, do rio ou da chuva na janela. Um dia vi uma casa onde a água passeava pelos corredores. Foi a primeira vez que ouvi falar de Barragán.


segunda-feira, janeiro 03, 2005

Horizontes


Sentei-me à janela num banco de namorados
Em frente a mim um lugar vazio.

Olhei o circulo sem fim dos desencontros.

Sabes que não temo as auto-estradas
mas receio os caminhos sem volta
ao centro de mim.

Ás vezes o sorriso esconde
avalanches de lágrimas
a deslizarem por encostas
de pensamentos tristes.

Talvez nunca as vejas.
Serás capaz de as sentir
no arrepio das tuas costas?

Olho o horizonte.
Dizem que a terra gira.
Não vejo.



Foto de M.

domingo, dezembro 26, 2004

Votos


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugénio de Andrade


Diria que a vida é breve e nada poder ser adiado. É urgente permanecer...Até Janeiro.


Foto de M.

domingo, dezembro 19, 2004

O menino Jesus


Em minha casa a figura do Natal era o menino Jesus. Diziam-me que ele vinha pela chaminé e trazia presentes para os meninos que se portassem bem. Ficava intrigada com tal proeza : a chaminé de minha casa era enorme, alta, larga. Tinha um ar sinistro quando se olhava para ela a partir da pedra da lareira. Tudo negro. Um túnel sem fim. Difícil imaginar um menino a descer por ali.

Esforçava-me por me portar bem. Queria muito uma bicicleta. Um ano decidi que estava na hora de a ter. Era uma menina que se portava bem. Era sempre a melhor na escola. Ganhava prémios e tudo.

Então, decidi pedi-la nesse ano. Escolhi o papel mais bonito que tinha em casa e escrevi uma longa carta a explicar porque precisava tanto da bicicleta e porque a merecia.
Pousei a carta na lareira e volta e meia ia espreitar para ver se ele já a tinha vindo buscar. Um dia desapareceu de lá e fiquei radiante. Ele agora já sabia.

Esperei pelo grande dia. A bicicleta não veio. Fiquei confusa. Afinal, o que teria feito eu de errado?

Passados uns tempos descobri a carta guardada numa das gavetas da minha mãe.

Foi assim que descobri que não havia Menino Jesus. Nem Pai Natal. Que nunca ninguém me iria dar nada. E foi assim que comecei a grande luta com a vida. A da conquista dos meus sonhos.

Boas festas.


Foto de M.