quinta-feira, agosto 19, 2004

Pessoas - Domingos António

“ O maestro Vitorino de Almeida diz que é um fora de série. O melómano Duarte Lima chama-lhe “ um jovem artista genial “, dotado de “ talento absoluto”. O divulgador musical António Cartaxo, um obcecado pela obra-prima de Mussorgsky “ Quadros de uma exposição “, pergunta-se se não gostará mais de ouvir a interpretação dele, do que a de Richter, o lendário pianista. Domingos António, 26 anos, obteve a nota máxima no Conservatório de Moscovo. Sem dinheiro nem piano, ensaiou durante o último ano batendo com os dedos no tampo da mesa da sala, na casa dos pais, em Bragança. Amigos organizaram-lhe dois concertos para quatrocentos convidados. Convencidos de que uma estrela vai nascer no firmamento pianístico. “

“ Horrível ( viver sem um piano para tocar ). Mas tem que se ter paciência. Tenho boa memória. Toco na mesa, na cabeça, faço exercícios com os dedos. Posso não tocar seis meses, chegar a um piano e em dois, três dias, já estou ( em forma ).”

“ Sem música a vida não tem sentido. A música é a maneira de organizar as nossas ideias e os nossos desejos mais fortes. E condensar. E formular. “

In Pública, 21/03/2004, reportagem de Adelino Gomes

terça-feira, agosto 17, 2004

Impressão Digital


Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê Moinhos? São moinhos
Vê Gigantes? São gigantes.

António Gedeão


( imagem retirada da internet )