terça-feira, agosto 17, 2004

O Caminho


E de repente tudo fica escuro
Como se a lua passasse
Sobre o sol

Mas não é noite
Nem madrugada
São os meus olhos

Não ambicionava mais nada
Que regressar a casa
Mas o caminho perdeu-se algures

Eu não soube usar a bússola
Porque eu não sou de bússolas
De fitas métricas, balanças
E coisas assim

Sou como os bichos
Vou pelo faro
Pelo instinto

E a minha intuição
Não quis encontrar
O caminho de volta


Foto de Rui Vale Sousa

domingo, agosto 15, 2004

Normalidade

À parte ser Verão
Chover e estar frio
Tudo corre como previsto.

As ruas cheias de carros
As mesas cheias de gente
E barulho, barulho, barulho
Desordem como é normal.

O mundo agora é assim
DESORGANIZADO
É normal que assim seja
Estranha sou eu
Que não gosto.

Como não gosto
De amizades apressadas
Nem de conversas automáticas.

Mas eu é que estou errada
EU SEI.
Até porque agora
É normal
Que no verão chova
E faça frio….

quinta-feira, agosto 12, 2004

A Casa

Quase te sinto como se fosses gente. Adivinho a mágoa de te ter deixado. Olho para ti hoje: linda e imponente. Queria voltar e não posso mais. Queria subir as escadas e espreitar outra vez todos os recantos de que eu me lembro.

Tal como o passado ficou no seu tempo, também tu já não me pertences.

E passo na rua. E olho para ti, quase engasgada na mágoa de não seres minha.

O que é injusto, porque qualquer um que entre hoje aí, não nasceu aí. Não deu aí os primeiros passos. Não teve os grandes pavores dos fantasmas do sótão. Não vestiu os vestidos de baile da avó, tirados do baú. Nem as combinações brancas de bordado inglês, boas para dançar ballet. Não viu os fins da tarde à janela com as andorinhas em bando a darem voltas à casa. Nem sentiu o cheiro do rio e escutou as rãs no Verão. Não ouviu o sino da igreja a tocar a cada quarto de hora. Não passou os serãos à lareira com os adultos a beberem vinho com mel. Não ouviu a chaminé enorme a uivar com o vento. Nem pôs aí as cartas para o Menino Jesus. Não viu o pai à janela. Nem jogou ao burro em pé com a mãe. Não brincou com as vinte bonecas. Nem leu aí os seus primeiros livros.

Nem sei se existirá agora, mas havia ai um quarto que foi onde eu nasci. Tinha uma clarabóia no tecto e a minha irmã espreitava por lá. Também foi aí que vi o meu pai dentro duma caixa e não percebi porquê.

E toda a gente que passe agora por aí nunca te poderá sentir como eu te sinto. Vinte e cinco anos é um vida. É quase toda a minha vida.

terça-feira, agosto 10, 2004

Dia de Feira V

E termina aqui a história da feira. Uma daquelas memórias que eu queria registar.

Estas recordações, que sempre farei questão de registar para que as pessoas nunca esqueçam que já vivemos assim, fazem-me pensar que, no meio de todas as dificuldades materiais que nenhuma criança de agora pode sequer imaginar, eu fui uma menina muito feliz. Paradoxalmente, eu fui uma menina muito rica e hoje sinto-me uma adulta multi-milionária. Tive a honra e o privilégio de ter vivido numa época de transição. Vivi no passado ( mesmo que através das histórias da minha mãe ) e vivo hoje na era da internet, do consumismo, de alguma maneira do Big Brother de George Orwell.

Sou multi-milionária, porque, embora me deixe embebedar por este ambiente que nada tem a ver com o meu dia de feira, eu ainda saboreio dentro de mim as pequenas coisas do dia a dia com o mesmo prazer e a mesma sensação de privilégio com que saboreava aquela limonada do cântaro preto do homem da feira.