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segunda-feira, fevereiro 24, 2014

Num livro antigo


Quando me saiu de dentro de um livro
que há muito não abria, um bilhete de comboio
de Lisboa para o Estoril, foi como se tivesse
voltado a embarcar nesse comboio que me iria levar
até à estação onde me esperavas, com os teus
cabelos soltos pelo vento da manhã, pensando no
tampo que ainda faltava para te ver. Porém, 
o comboio parou em cada ano
que me separava desse dia, e
acabaste por te cansar da espera
nesse cais onde o vento te soltava
os cabelos, enquanto eu ia contando
os anos à medida que me aproximava
de ti. E quando cheguei à estação
onde me esperavas, só a imagem dos teus cabelos
soltos ainda voava nesse cais vazio onde tinhas
estado, escondendo o teu rosto,
até hoje, quando um bilhete de comboio
de Lisboa para o Estoril me fez viajar
até onde já ninguém me espera.

Nuno Júdice in A matéria do poema

Foto de Luís Miguel Duarte

segunda-feira, dezembro 23, 2013

Natal: uma Alegria que vem de dentro


    
    Não recorras ao que já sabes do Natal,
    mas coloca-te à espera
    daquilo que de repente em teu coração
    se pode revelar

    Não  reduzas o Natal ao enredo dos símbolos
    tornando-o um fragmento trémulo sem lugar
    no concreto da vida
    Não repitas apenas as frases que te sentes obrigado a dizer
    como se o Natal devesse preencher um vazio
    em vez de o desocultar

    Não confundas os embrulhos com o dom
    nem a acumulação de coisas com a possibilidade da festa:
    o que recebes de graça
    só gratuitamente poderás partilhar
    Cuida do exterior sabendo que ele é verdadeiro
    quando movido por uma alegria que vem de dentro

    Uma só coisa merece ser buscada e celebrada, uma só:
    o despertar de  uma Presença no fundo da alma

    Por isso o Natal que é teu não te pertence
    Só a outro o poderás pedir.

    José Tolentino Mendonça

    Foto de Luís Miguel Duarte

segunda-feira, janeiro 14, 2013

...

 

mãe, cada palavra que me ensinaste repete mil vezes o teu nome.  

José Luís Peixoto in A casa, a escuridão

Foto de Luís Miguel Duarte

segunda-feira, outubro 29, 2012

Arte poética

 

Há um motivo de seda nas cordas 
do coração. Puxo-o devagar, com os dedos 
da alma, e o que aparece na mão 
são coisas simples, confissões, segredos. 

Mas se visto com essa seda a tua 
imagem, o que os meus dedos tocam 
é mais real do que a vida, e tem 
o teu corpo, os teus lábios, a tua voz. 

Desfaço assim, o embrulho da estrofe, 
e deito fora os cordéis da retórica, 
 o papel das figuras, a cola da música. 

É melhor assim, quando o poema fica 
às escuras no silêncio da casa, e me 
deixa ouvir os teus passos, tão junto a mim.  

Nuno Júdice in O breve sentimento do eterno 

Foto de Luís Miguel Duarte

segunda-feira, outubro 22, 2012

terça-feira, agosto 07, 2012

Explicação do poeta



Pousa devagar a enxada sobre o ombro 
já cavou muito silêncio 

Como punhal brilha em suas costas 
a lâmina contra o cansaço  

Daniel Faria in Explicação das árvores e de outros animais

Foto de Luís Miguel Duarte 

quarta-feira, março 21, 2012

O dia da poesia com o meu poema favorito


Aos poucos apercebi-me do modo 
desolado incerto quase eventual 
com que morava em minha casa 

assim ele habitou cidades 
desprovidas 
ou os portos levantinos a que 
se ligava apenas por saber 
que nada ali o esperava 

assim se reteve nos campos 
dos ciganos sem nunca conseguir 
ser um deles: 
nas suas rixas insanas 
nas danças de navalhas 
na arte de domar a dor 
chegou a ser o melhor 
mas era ainda a criança perdida 
que protesta inocência 
dentro do escuro 

não será por muito tempo 
assim eu pensava 
e pelas falésias já a solidão 
dele vinha 
não será por muito tempo 
assim eu pensava 
mas ele sorria e uma a uma 
as evidências negava 
por isso vos digo 
não deixeis o vosso grande amor 
refém dos mal-entendidos 
do mundo 

José Tolentino Mendonça in Anos 90 e Agora, Uma antologia da Nova Poesia Portuguesa 

Foto de Luís Miguel Duarte

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Havemos de engordar juntos




(...) Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma. Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.

As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.

Havemos de engordar juntos (...).

Amor burguês de José Luís Peixoto

Foto de Luís Miguel Duarte

terça-feira, janeiro 24, 2012

Travessa da Infância



Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas

lembro-me de uma janela
na Travessa da infância
onde seguindo o rumor dos autocarros
olhei pela primeira vez
o mundo

não sei se poderás adivinhar
a secreta glória que senti
por esses dias

só mais tarde descobri que
o último apeadeiro de todos
os autocarros
era ainda antes
do mundo

mas isso foi
muito depois
repito


José Tolentino Mendonça
in A noite abre meus olhos

Foto de Luís Miguel Duarte

quarta-feira, janeiro 18, 2012

A estrada branca



Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate


José Tolentino Mendonça in A estrada branca

Foto de Luís Miguel Duarte

sexta-feira, dezembro 16, 2011

...



E o amor transformou-se noutra coisa com o mesmo nome.
Era disto que falavam as mães quando davam conselhos
ás filhas e diziam: o amor vem depois. Era isto o depois.
Uma ternura simples, quase dolorosa, muitos silêncios,
todas as horas do dia e um poema que se dissolve dentro
de mim e que, devagar, sem rosto, desaparece.

José Luís Peixoto, in Gaveta de Papéis.


Foto de Luis Miguel Duarte ( praia da Adraga )

segunda-feira, maio 16, 2011

Hotel Inglês



Aprendo muito quando o verão acaba

Para lá das coisas habituais

O sinal ardente, primitivo:

Uma espécie de abandono sem socorro

Diferente da rendição


Apercebo-me do frio pela primeira vez

No vento, na água

Alugamos bicicletas para chegar à costa

À procura do que resta

Uma estação

Onde as imagens não naufraguem a cada instante


Também eu me recuso a dizer apenas

O que pode ser dito


José Tolentino Mendonça in A noite abre meus olhos

terça-feira, janeiro 12, 2010

ZIW



A vastidão avança por aquilo de que falamos
evoca o que o tempo nos aconselha
com mensagens que parecem sem sentido:
o telefone toca apenas uma vez
faróis são deixados toda a tarde acesos
sucessivas falhas nos perturbam
pois não são falhas apenas

talvez a completa escuridão nunca tenha existido
talvez nos momentos decisivos
regresse por alguma passagem o desconhecido

um milhão de cintilantes lanternas de papel
sobre o rio
e a alma repete a pergunta eterna


José Tolentino Mendonça in A estrada branca


Foto de João Coutinho

terça-feira, outubro 13, 2009

Logo atrás de ti



Esta dor não passa quando adormeço
chora ao pé de mim
irremediável

alguém nos toca no ombro e
damos por nós mais sozinhos

o meu lugar na morte
é junto da janela
logo atrás de ti


Mário Rui de Oliveira in Bairro Judaico


Foto de João Coutinho

quinta-feira, maio 14, 2009

Quero que sejas feliz



Quando os instantes de manhã se acumulam
nas paredes da casa, eu rasgo as páginas onde te escrevo,
porque sei que tudo será desnecessário, tudo será
frágil. Quando imagino o sol que não sei poderei ver,
esqueço as paredes e,

com tanta força,

quero que sejas feliz
.

José Luís Peixoto in A casa, a escuridão


Foto de João Coutinho

quarta-feira, novembro 26, 2008

Palavras de outros



Estou dentro de paredes brancas.
Quatro paredes: a minha cela,
O frio, a solidão e o meu catre.
A luz entra sempre de noite.

Não tinha nada donde vim. Ainda não encontrei
O que tive e a cadeira não serve o meu repouso.
Ainda não há lugar no mundo onde possa sossegar de tu não seres
O vazio que persiste à minha beira.

Tenho um pequeno sonho de uma janela por abrir:
E que paisagem não seria estar feliz!


Daniel Faria in Explicação das árvores e de outros animais


Foto de João Coutinho

sexta-feira, outubro 24, 2008

O melhor verso



Não há melhor verso do que calçar os sapatos, ir comprar o pão ou ver o mar crescer.

José Tolentino Mendonça nas Quintas de Leitura, no Teatro do Campo Alegre.


Foto de João Coutinho

segunda-feira, outubro 13, 2008

Então porque não voas?



A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"


Sérgio Godinho - A noite passada


Foto de João Coutinho

quinta-feira, agosto 28, 2008

A liberdade é um vício



Tenho medo que a liberdade se torne um vício.

Miguel Sousa Tavares in Rio das Flores


Foto: Caixa Forum de Herzog & de Meuron - Madrid

sábado, junho 21, 2008

Muriel



Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas a dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontro
sem que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido.


Ruy Belo


Foto de João Coutinho