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sábado, março 03, 2007

Do baú: Domingo



Não te conheço ainda não sei quem és
Disseram-me de ti tantas coisas que não ouço
Disseram-me de ti que tinhas visto o mundo

Não conhecia ninguém que tivesse visto o mundo
Sempre estive encerrada na minha aldeia
Nunca soube bem o que encontrar do lado de lá do monte

Uma vez vieste à missa do meio-dia
E encontrei-te ao sol da tarde no adro da igreja
Eu era a menina de tranças e tu o rapaz de blusão de couro

Mas os meus olhos eram da cor dos teus
E o mundo que eu não vi estava no teu olhar
E o mundo que eu vi estava em mim e tu soubeste



Foto de João Coutinho

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Do baú: Perguntas



Dás-me licença
De entrar na tua vida
E pendurar na parede da tua sala
A minha janela?
Posso desarrumar tudo
Tirar os sapatos
E estender-me no teu mundo ?
Espalhar nos teus minutos
Toda as dúvidas
Que trago comigo ?
Passear descalça pelo
Corredor das tuas certezas?
Desfazer a tua cama
e dormir atravessada nos teus sonhos?
Posso entrar e sair de casa
Dás-me a chave
E não me marcas horas?

Posso voar ?

Daqui onde estou presa
Para a tua vida inteira?



Foto de João Coutinho

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Estações



Sei ainda que sabor tinham os dias quando te conhecia
Guardo sempre o melhor de cada estação
No cais de embarque os comboios chegam e partem
E vou dizendo adeus a alguns rostos nas janelas
Guardo em mim sempre tudo o que me ensinam
Guardo mais que tudo o carinho com que os olhei um dia
Esqueci o que veio depois como se nunca tivesse vindo
E saí na estação que entendi ser a minha
E agora estou em casa e olho tranquila os dias
Que passam como comboios de alta velocidade
E levam e trazem sonhos e pessoas
E a vida sorri sempre sempre sempre e apesar.



A lembrança deste poema antigo foi acordada por este video Les voyages en train de Grand Corps Malade . Com os respectivos agradecimentos à amiga que me proporcionou esta descoberta.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Exercício de ostranenia



tropecei numa nuvem
quando saltava à corda
com um raio de sol

agora

dói-me a alma



Foto de João Coutinho

sábado, dezembro 30, 2006

Festa!



Flutes alinhados. Amigos a postos. Venha a festa!

E que a alegria destes momentos se estenda por todo o ano 2007.

São os nossos votos para todos os que por aqui passam.


Foto de João Coutinho

sábado, dezembro 23, 2006

Votos e rituais



Apesar de todas os motivos que me fizeram um dia destes ter tido um pensamento bizarro para o ano quero ir para um país onde não haja Natal, estou feliz por ter conseguido finalmente parar.

Agora há que pôr as etiquetas nos presentes e esperar a grande noite. Para além disso, gosto daquelas velas douradas na sala e até tive vontade de pôr qualquer coisa brilhante numa das janelas.

Gosto do Natal. Gosto da desforra de agora gostar e ter havido dias no passado em que não gostei tanto. Tenho toda a gente comigo.

Feliz Natal!



Foto de João Coutinho

domingo, dezembro 17, 2006

Sinestesia



com asas de gaivota
fugimos lépidos delicados
da gravidade de isaac

na mesa da cozinha
estava um raio de sol
maças vermelhas
uma tarde branca

o cheiro a canela pelo ar
embrulhava-se em paixão
com o piano
que voou da sala
foi há muito tempo

um dia lento e aromático
na época das cerejas e dos sonhos.



Foto de João Coutinho

domingo, dezembro 10, 2006

Era uma vez



antigamente o sol nascia ao meu lado
navegava docemente nos meus sonhos
e no mar o horizonte era o fio onde
um equilibrista passeava sobre pontas

um dia mais tarde voaram os pássaros
destino incerto sem astrolábios
e nunca mais vimos aquelas oliveiras
dos prados do passado onde trepámos

hoje chegou o tempo das chuvadas
os dias escorrem nas janelas apressados
do lado de cá onde agora estamos

nunca mais ouvimos o vento
a sibilar entre as espigas de milho

nunca mais jogámos ás escondidas
com a alegria



Foto de João Coutinho

segunda-feira, novembro 27, 2006

Momentos da não-vida



Hoje um homem uivou na janela do meu carro, no semáforo. Toda a aparência dele justificava aquele rugido.

Se me assustei foi só porque momentos antes tinha parado para deixar um passarinho acabar o seu banho numa poça de água. Estava perdida num pensamento feliz sobre os momentos encantados que ainda se podem viver numa cidade.

O uivo dele devolveu-me a realidade.


Foto de João Coutinho

segunda-feira, novembro 20, 2006

Metablogue ou momento de reflexão


O google deixa-me preocupada com a responsabilidade que me tem atribuído: esclarecer quem procura sentidos para a palavra saudade.


Foto de João Coutinho

terça-feira, agosto 15, 2006

Histórias da praia



Rimo-nos na esplanada com uma piada qualquer acerca do nevoeiro. Passado um bocado esse nevoeiro desceu e arrumou-se todo à volta do coração. Vai demorar algum tempo a dissipar-se. O tempo de arrumar no lugar das coisas boas os passeios pelas rochas, as grutas, os caranguejos gigantes, os piratas, os banhos intermináveis ao fim da tarde.
Olhei de relance uma revista. Falavam do sindroma de Peter Pan. Não quero crescer nunca. Mesmo quando a minha energia não tiver mais resposta no meu corpo e já não for capaz de escalar penedos, os meus olhos verão nas ondas os galeões, verão na praia o desembarque dos piratas, os tesouros escondidos na areia. Nesse dia a princesa já terá crescido e as lembranças estarão guardadas eternamente dentro de arcas cheias de tesouros.
A amizade sem datas. A gargalhada livre do fundo dos dias felizes.
Ficarão também para sempre os nossos nomes mimalhos. Biscoito grande, biscoito pequeno, bruxinhas, ratonços e pipiros.


Foto de Trieffele

terça-feira, julho 25, 2006

Férias



O blog vai de férias. Para começar vai ser por aqui e depois, bem, depois, quem sabe?...


Foto de João Coutinho

terça-feira, julho 18, 2006

Grilos e água nas noites


Numas destas noites quentes, uma experiência mágica no ar africano que agora invadiu o nosso serão. Um piano na escadaria de pedra. Uma magnólia gigante. Debussy acompanhado de grilos e de água a cair numa fonte. Folhas secas a estalarem no chão. A pianista magra de vestido acetinado vermelho escuro.
Já está quase a terminar, mas vale a pena: festival de ópera e música classíca de Ponte de Lima ou o fantástico projecto Opera Faber.

segunda-feira, julho 10, 2006

Do Minho



Que dizer sobre as flores amarelas que crescem na berma da estrada e dos arbustos que rompem a terra aqui e ali sem que ninguém os tenha semeado a não ser o vento? Que dizer da água fulgurante que desliza com ruído pelos balados abrindo sulcos na terra castanha, húmida, fértil?

Vivo na pátria exuberante onde os olhos tropeçam a todo o instante com formas excessivas, verdes, vivas, coloridas. Nenhum lugar existe para descansar o olhar. Ao ritmo da oferta ostensiva e intensa da natureza, os pensamentos fervem, borbulham, explodem. As mãos fervilham em vontade de fazer. O coração bate, sufoca, estoura.

A casa é todo o lugar donde se avistem as estrelas. A sala de estar a rua onde se escutam gargalhadas e vozes. Não me estranhem em todo o meu excesso. É daqui que eu sou. Sabendo que ser daqui, assim intensamente, me retira muitas vezes a paz de me encontrar comigo no silêncio.



Foto de João Coutinho

segunda-feira, junho 12, 2006

Loser*



Este é para ti, cavaleiro, princesa, sapo. Todos os dias acordas e muitas vezes demoras a perceber em que cidade estás, em que quarto dormiste, que dia é e o que vais fazer dos teus sonhos. Percebo muitas vezes que despertas com uma dor no peito e o ar que respiras não te basta para viver mais um dia. Mas os teus olhos vêem as dunas, os pássaros nos ninhos, vêem o infinito e o mar da janela. Viajas num planeta muitas vezes hostil, mas quando o olhas do espaço sabes onde é a tua casa. Voas e planas atento às cidades, ao que nelas te deslumbra e ao que te dói. Ás vezes não cabes dentro da tua alma e explodes, choras e deixas de acreditar. Tudo seria mais fácil se o mundo fosse simples como o é para o Joaquim. Acredito que o desejes. Mas não é. Estás vivo. E encontrar o caminho é coisa tua.

*Loser


Foto de Trieffele

quarta-feira, junho 07, 2006

Escrever



Écrire c'est aussi ne pas parler. C'est se taire. C'est hurler sans bruit.

Marguerite Duras in Écrire


Foto de João Coutinho

quinta-feira, maio 18, 2006

A casa



Não é a casa que nos abriga, nós é que abrigamos a casa, pois é a ternura que sustenta o tecto.

Mia Couto in O outro pé da sereia


Foto de João Coutinho

segunda-feira, maio 08, 2006

Surpresa








Reconheci-o logo, no entanto estranhei-o. Julgo que corei por estar finalmente a ver os girassóis ali à minha frente.
Depois alguém me esclareceu que afinal ele pintou vários quadros com girassóis. Estava explicada a estranheza.
Ficou também registado o motivo: a amizade. Pintou um destes quadros para decorar o quarto onde iria receber o amigo Gauguin. Na famosa casa amarela em Arles.