Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Mário de Cesariny
Foto de João Coutinho


4 Comments:
porque é hoje não se pensa no que realmente importa?
e quando se pensa no que importa, nada se faz?
é preciso portanto reflexão e coragem. o que importa é viver! mas não o viver como vivemos.
será que era isto que o poeta quereria dizer?
A foto faz um conjunto fantástico com o texto, muito bem conseguido...do Mario, bom, todos sabem, excelentes palavras onde se lê que nem sempre o que é importante está há vista.
Jinho
sim, rir de tudo! mas o Cesariny nã era professor e ainda bem, senão não teria esta subversiva vontade!
:) Beijo
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