sexta-feira, dezembro 21, 2007

Natal no Minho



É aqui que eu moro. É aqui que sinto o verdadeiro Natal. Não podia deixar de o partilhar com todos os que passam neste sítio. Feliz tudo.


Foto de Chris Burnel

segunda-feira, novembro 05, 2007

Notas soltas



A verdade é que o leitor mudou. Os livros, hoje, são produtos de consumo. As pessoas compram livros como compram um electrodoméstico, ou uma vitamina. O livro tem que servir para alguma coisa, tem que resolver um problema específico. Em outras palavras, as pessoas compram o livro para se enganarem.

Patricia Melo em entrevista à revista Ler


Foto de João Coutinho

segunda-feira, outubro 22, 2007

Bem-vinda à realidade



É uma grande aventura contemplar o universo para além do homem, pensar no que significa sem o homem - tal como foi durante a maior parte da sua longa história e tal como é na grande maioria dos lugares. Quando esta visão objectiva é finalmente alcançada, e o mistério e a majestade da matéria são apreciados, voltar a focar o olho objectivo no homem visto como matéria e ver a vida como parte de um mistério universal da maior profundidade é experimentar algo que raramente é descrito.
(...)
Estas visões cientificas resultam em fascínio e mistério, perdidos na fronteira da incerteza, mas parecem ser tão profundas e impressionantes que a teoria de que tudo está simplesmente arranjado como um palco para Deus ver o homem a lutar pelo bem e pelo mal parece ser inadequada.


Richard P. Feynman in O prazer da descoberta


Sempre suspeitei que estamos inevitável e fatalmente entregues a nós mesmos.


Foto de João Coutinho

quarta-feira, outubro 03, 2007

Sete vidas



Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-me outra coisa - ou
de ser gato, para poder ter mais que uma vida.

Maria do Rosário Pedreira in Nenhum Nome Depois


Gostava de ter sete vidas. Não para morrer e renascer sete vezes, mas para as viver todas ao mesmo tempo. Agora mesmo.


Foto de João Coutinho

quinta-feira, setembro 27, 2007

Depois não digam que não acontece nada no Porto

VALE O QUE VALE
Adaptação e Encenaçãode Lee Beagley
a partir da peça expressionista
de Georg Kaiser"Von Morgens bis Mitternacht"(1916).


E S T R E I A 2 2 S E T E M B R O

De 22 de Setembro a 28 de Outubro
3ªfeira a domingo, todos os diasàs 21.30h

Sinopse:

A história de um roubo a um banco, perpetrado por um homem anónimo. Uma sátira económica e cómica sobre um suicídio.


As almas dos funcionários do banco estão fechadas no cofre do velho banco.O público visita o banco, conduzido pelo “Camelo”, o vagabundo anfitrião.


Aconteceu um acidente fatal. Esta é a história sobre esse acidente.


As portas do cofre abrem-se e delas saem os espíritos daqueles que não conseguem parar de trabalhar. Mesmo depois de mortos.


Tomé é um anónimo funcionário do banco.Um D.J. da rádio guloso e rico, uma italiana exótica coleccionadora de arte, um gerente do banco obcecado, uma artista hedonística, um grupo de vagabundos fundamentalistas, uma mãe e a sua família em quem não se pode confiar, todos eles conspiram contra Tomé numa viagem paranóica dia e noite, constantemente.


Uma viagem onde ele experimenta o que o dinheiro pode e não pode comprar.
Quando vale uma vida? Quanto vale a sua morte?


Mais informações aqui.


Já vi um outro trabalho das Produções Suplementares - a Relíquia de Eça de Queirós, representada num palácio em ruínas na Rua das Flores. O grupo escolhe sempre espaços não convencionais para apresentar as suas peças. Esta foi uma experiência única e inesquecível. Por isso, recomendo-os com toda a convicção.

sábado, setembro 15, 2007

Festa



Ponte de Lima está em festa. Está calor e ouvem-se por todo o lado concertinas e castanholas. Hoje de manhã a terra tremeu com os grupos de Zés Pereiras no Largo de Camões - imperdível, é o que vos digo.

terça-feira, setembro 04, 2007

Cartas para lugar nenhum: conspiração



quiero hacerte feliz
oí en un instante, en la ausencia
y temi que no existieras

Ulisses Rolin in Mientras las hojas se dejan morrir

terça-feira, agosto 21, 2007

Cartas para lugar nenhum: would you?



(... ) Uma das coisas que mais o aproximava da mulher consistia precisamente em conseguir isso com ela sem necessidade de se vestir de frases, a capacidade de se entenderem num rápido soslaio e que nada tinha a ver com o conhecimento um do outro porque desde a primeira vez em que se encontraram fora assim, eram ambos então ainda muito novos e haviam-se quedado siderados com a estranha força oculta daquele milagre que com quem mais ninguém lhes sucedia, união tão perfeita e tão funda...

António Lobo Anuntes in Memória de Elefante

E tu? Irias ao fim do mundo por esta cumplicidade?

sábado, agosto 04, 2007

Cartas para lugar nenhum - Cumplicidade



...desejou com desespero um esperanto que abolisse as distâncias entre as pessoas, aparelho verbal capaz de abrir janelas de manhã nas fundas noites de cada criatura como certos poemas de Ezra Pound nos mostram de súbito os sotãos de nós mesmos num maravilhamento de revelação: a certeza de ter topado um companheiro de viagem em banco à primeira vista vazio e a alegria da partilha inesperada.

António Lobo Antunes in Memória de Elefante


Foto de João Coutinho

domingo, julho 22, 2007

A modo de parrafada II



(...) Dende aquela prestáronos moitas mans, mans que agradecemos moito, sen elas a historia o mellor só era iso, historia, e non presente como hoxe é. Gracias unha vez mais a todas elas, as pasadas, as presentas e as que agardamos están por vir.
E aquí estamos, tentando renovar a ilusión cada día, facendo as cousas honradamente como e tradición no noso Pobo e loitando por sentir orgullo do noso traballo, cousa que dende anos foi difícil nesta Terra. Hoxe xa entrando nun novo século a esperanza sigue sendo o ultimo que se perde.
Agradecer tamén o voso apollo, que sodes os que o fin facedes disto unha realidade.

E como non, Bo Proveito


Texto cedido pela Taberna O Lagar em Eiras - Tui


Que bem que soa o galego...


Foto de João Coutinho

domingo, julho 15, 2007

História de um lagar especial ou "a modo de parrafada" I



Depois de anos a ir lá, consegui finalmente que me cedessem a história. Assim posso contar - numa lingua que me soa tão bem:o galego - como nasceu um sítio que preenche todos os sentidos.

En mentres non vos collemos o pedido e se vos prestades vamos entretervos con un pouco de historia, da nosa historia.
Atopádesvos nunha casa de Labregos Galego-Portugueses, a casa de María da Morghada e Francisco, xente humilde (sen escolla, humilde por obrigación) que co seu traballo ergueu esta casa. Logho o tempo i a vida pasou, e a casa como tantas quedou valeira, a espera de nova savia.
E no ano oitenta e sete, nunha Ourensá rúa dos viños, dous Minhotos, Berto e Miguel deron en pensar que se querían facer Taberneiros. Co máximo respeto e poucos cartos montouse “unha tasca diferente”, así se anunciaba no ano oitenta oito a súa apertura. Coñecementos os mínimos, por non dicir ningún e ilusión a máxima, poida que ela, a ilusión, nos levara a que hoxe aínda esteamos aquí e téndovos a vos como clientes.

(...)

Taberna O Lagar en Eiras
Picons darriba, 12 Eiras
O Rosal Pontevedra
986 620 053



Foto de João Coutinho

quarta-feira, julho 04, 2007

Sumário



O blogue fez três anos no passado dia 30 e eu nem me lembrei de assinalar a data. Nesse dia havia corridas de cavalos em Ponte de Lima, sevilhanas e muita, muita chuva. De resto não me apetece escrever; este é um fenómeno que me acontece sempre que me aproximo da Faculdade de Letras - há 3 anos atrás queixei-me do mesmo no 1º post que escrevi. Para além disso, tenho-me dado mal com Molière, Corneille e Rabelais. Em contrapartida, parece-me que vivi a vida inteira com Mukarovski, Bakhtine, Derrida e Eco. Em breve farei anos também e não me apetece fazer festa nenhuma - nada de novo, é sempre assim: definitivamente não gosto de festejos.
De qualquer forma, como diria Derrida, não existe nada para além do texto.


quinta-feira, junho 07, 2007

Vacas das cordas



Hoje moro no meio de um festa que me entra em casa por todas as janelas. Literalmente. Se não acreditam, no próximo ano venham a Ponte de Lima - na véspera do feriado do Corpo de Deus - e verão do que falo.


Foto de João Coutinho

quarta-feira, maio 16, 2007

Blog a ritmo muito lento...



...vida a alta velocidade.

( Voltaremos à normalidade em breve. Para já, pedimos paciência a quem continua a visitar-nos. )


Foto de João Coutinho

quarta-feira, maio 09, 2007

Do Baú: Sobreviventes



Como uma criança atravesso ruas e avenidas
Os olhos pousam e voam rasando o mundo
Em todos os lugares que quero levar comigo
Entrego-me à vida com a doçura de quem não sabe mais
E nada mais sei do que existir sentindo o que me toca
Sei que não deveria dar-me assim sem medo
Dizem-me os conselhos que não se deve seguir em frente
Como se toda a gente se cruzasse nos caminhos
Com bandeiras brancas e olhos brilhantes de ternura
Sigo assim desprotegida dos que se escondem
Atrás de mágoas e intenções guerreiras de ferir
A brancura permanece intacta nos que sobrevivem
A fragilidade dos que não se protegem enche os dias de luz



Foto de João Coutinho

sábado, abril 28, 2007

Do Baú: Vidro



Estava estilhaçada em fragmentos
Estava nas paredes sujas dos prédios na cidade
Nas valetas com papeis desfeitos e latas de coca-cola
Nos carros e no fumo negro dos canos de escape
Nas televisões em volume máximo
Nas pessoas a correr aos tropeções
Nos cães com sarna e nas crianças desabrigadas
Estava estilhaçada na dor e no ruído

Um dia uma mão dourada pegou no vidro translúcido
Que brilhava na calçada e guardou-o no coração
Então encontrei-me no silêncio e fiquei só uma



Foto de João Coutinho

terça-feira, abril 17, 2007

domingo, abril 01, 2007

Correspondances



La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L’homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l’observent avec des regards familiers.
Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.
Il est des parfums frais comme des chairs d’enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d’autres, corrompus, riches et triomphants,
Ayant l’expansion des choses infinies,
Comme l’ambre, le musc, le benjoin et l’encens,
Qui chantent les transports de l’esprit et des sens.


Baudelaire in Les Fleurs du Mal



«Sajaja bramani totari ta, raitata raitata, radu ridu raitata, rota» – proferem as Vozes indistintas, de tempos diversos, que, nas profundezas do ser, se avistam clamorosas e cintilantes. São os cânticos sensoriais da verdade inata das coisas que, mesmo em artes dissemelhantes, se correspondem, se atraem.

Texto de LucifADES

segunda-feira, março 26, 2007

Divulgação

Dia 28 de Março:
Noites de poesia e música - Evocações
Das 21.30 às 23 horas

António Nobre cantado por Tino Flores

Dia 29 de Março:
Ciclo de Conferências SETUP
Centro de Estudos Teatrais
Às 18:00h

Coração, Palco, Praça - Os Lugares Modais e suas Tensões pelo Prof. Jorge Croce Ribera da Universidade de Évora


Tudo isto na Praça dos Leões. O primeiro na UNICEPE e o segundo na Reitoria da Universidade do Porto.

sábado, março 10, 2007

Do baú: Um



Àquela hora não sabia ainda se virias
se os atrasos do tempo sempre a horas
iriam enferrujar as máquinas dos relógios

Olhei muitas vezes a torre da igreja
outras nem olhei e o sino tocou
na trémula névoa do calor da estrada

As mãos unidas a dada altura
pareciam uma

Uma a pele e o sangue um
como também os pensamentos
que escapavam na direcção
que os teus olhos tomavam
e encontravam os meus
ali acolá pousados
nas mesmas coisas que procuravas

Esperavam-te para pousar a seguir
com os teus noutro lugar



Foto de João Coutinho

sábado, março 03, 2007

Do baú: Domingo



Não te conheço ainda não sei quem és
Disseram-me de ti tantas coisas que não ouço
Disseram-me de ti que tinhas visto o mundo

Não conhecia ninguém que tivesse visto o mundo
Sempre estive encerrada na minha aldeia
Nunca soube bem o que encontrar do lado de lá do monte

Uma vez vieste à missa do meio-dia
E encontrei-te ao sol da tarde no adro da igreja
Eu era a menina de tranças e tu o rapaz de blusão de couro

Mas os meus olhos eram da cor dos teus
E o mundo que eu não vi estava no teu olhar
E o mundo que eu vi estava em mim e tu soubeste



Foto de João Coutinho

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Do baú: Perguntas



Dás-me licença
De entrar na tua vida
E pendurar na parede da tua sala
A minha janela?
Posso desarrumar tudo
Tirar os sapatos
E estender-me no teu mundo ?
Espalhar nos teus minutos
Toda as dúvidas
Que trago comigo ?
Passear descalça pelo
Corredor das tuas certezas?
Desfazer a tua cama
e dormir atravessada nos teus sonhos?
Posso entrar e sair de casa
Dás-me a chave
E não me marcas horas?

Posso voar ?

Daqui onde estou presa
Para a tua vida inteira?



Foto de João Coutinho

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Estações



Sei ainda que sabor tinham os dias quando te conhecia
Guardo sempre o melhor de cada estação
No cais de embarque os comboios chegam e partem
E vou dizendo adeus a alguns rostos nas janelas
Guardo em mim sempre tudo o que me ensinam
Guardo mais que tudo o carinho com que os olhei um dia
Esqueci o que veio depois como se nunca tivesse vindo
E saí na estação que entendi ser a minha
E agora estou em casa e olho tranquila os dias
Que passam como comboios de alta velocidade
E levam e trazem sonhos e pessoas
E a vida sorri sempre sempre sempre e apesar.



A lembrança deste poema antigo foi acordada por este video Les voyages en train de Grand Corps Malade . Com os respectivos agradecimentos à amiga que me proporcionou esta descoberta.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Exercício de ostranenia



tropecei numa nuvem
quando saltava à corda
com um raio de sol

agora

dói-me a alma



Foto de João Coutinho

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Ostranenia*



Assim, a vida desaparece, transforma-se num nada. A automatização traga os objectos, os fatos, os móveis, a mulher e o medo da guerra.
"Se toda a vida complexa de muitas pessoas se desenrola inconscientemente, então é como se essa vida não tivesse existido."
E eis que para se ter a sensação da vida, para sentir os objectos, para sentir que a pedra é pedra, existe aquilo a que se chama arte. A finalidade da arte é dar uma sensação do objecto como visão e não como reconhecimento: o processo da arte é o processo de singularização dos objectos e o processo que consiste em obscurecer a forma, em aumentar a dificuldade e a duração de percepção.


Chklovski in A arte como processo


Foto de João Coutinho


* do russo, estranhamento

quinta-feira, janeiro 11, 2007

O embrião da censura



- Por conseguinte, ó Gláucon, quando encontrares encomiastas de Homero, a dizerem que esse poeta foi o educador da Grécia, e que é digno de se tomar por modelo no que toca a administração e a educação humana, para aprender com ele a regular toda a nossa vida, deves beijá-los e saudá-los como sendo as melhores pessoas que é possível, e concordar com elas em que Homero é o maior dos poetas e o primeiro dos tragediógrafos, mas reconhecer que, quanto à poesia, somente se devem receber na cidade hinos aos deuses e encómios aos varões honestos e nada mais. Se, porém, acolheres a Musa aprazível na lírica ou na epopeia, governarão a tua cidade o prazer e a dor, em lugar da lei e do princípio que a comunidade considere, em todas as circunstâncias , o melhor.

Platão in A República


Foto de João Coutinho

quinta-feira, janeiro 04, 2007

A arte



El arte es precisamente la actividad humana que consigue el paso de lo infinito del Espíritu a lo finito da la Naturaleza.

Carmen Naves ( Universidade de Oviedo ) sobre Schelling in Curso de Teoria de la Literatura.


Foto de João Coutinho

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Depois da festa a literatura



Moritz escreve: " o verdadeiro belo consiste numa coisa que só se designa a si própria, que só se contém a si própria, que é um todo realizado em si mesmo". Mas a arte define-se pelo belo: " Se a única razão de ser de uma obra de arte fosse indicar algo que lhe é exterior, tornar-se-ia por isso mesmo secundária, ao passo que se trata sempre, no caso do belo, de ser ele próprio o motivo principal." A pintura são imagens que vemos em si mesmas, e não em função de uma outra utilidade; o valor da música, dos sons, reside neles próprios. Enfim, a literatura é uma linguagem não instrumental e o seu valor reside nela própria, ou como diz Novalis " uma expressão pela expressão".

Tzvetan Todorov in Os Géneros do Discurso


Foto de João Coutinho